Sabrina Noivas 93 - A Bride To Honor

O que era mais importante para aquele homem?Ele era 1 homem possuidor de 1 fortuna e prestgio invejveis, mas no havia quantia de dinheiro capaz de dispensar Paul Spencer de 1 iminente casamento de convenincia. Seu av lhe deixara pouca escolha: desposar 1 mulher que ele desprezava ou perder os negcios da famlia. E, com Paul, a famlia sempre vinha em primeiro lugar. At ele pr os olhos na bela e inocente Cassidy. A partir daquele momento, ele j no sabia o que vinha primeiro: seu desejo de agradar  famlia ou de ter Cassidy nos braos!

Digitalizao e correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1999
Publicao original: 1998. Estado da Obra: Corrigida
Gnero: Romance contemporneo

Srie Noivas Virgens (Virgin Brides)
Autor	Ttulo	Ebooks	Data
Palmer, Diana	The Princess Bride
Sab.Noivas 069 - H.Texas 17.1 - Tudo Por Um Beijo	Mar-1998August, Elizabeth	The Bride's Second Thought
Sab.Noivas 090 - Razes Do Corao	Apr-1998Broadrick, Annette	Unforgettable Bride
Sabrina 1044 - Um Amor Para Sempre	May-1998Carey, Suzanne	Sweet Bride of Revenge
	Jun-1998Steffen, Sandra	The Bounty Hunter's Bride
	Jul-1998Ferrarella, Marie	Suddenly... Marriage
Sab.Noivas 092 - De Repente...Casados!	Aug-1998Paige, Laurie	The Guardian's Bride
Sab.Noivas 100 - Planos Para Um Casamento	Sep-1998Christenberry, Judy	The Nine-Month Bride
BD 724 - Aconteceu o Amor!	Oct-1998James, Arlene	A Bride to Honor
Sab.Noivas 093 -Preldio de Amor	Nov-1998Longford, Lindsay	A Kiss, a Kid and a Mistletoe Bride
Sab.Noivas 113 - Beijo Roubado	Dec-1998Palmer, Diana	Callaghan's Bride
Julia 1129 -  H.Texas 19 - Irmos Hart 03 - As Estaes Do Amor	Mar-1999James, Arlene	Glass Slipper Bride
	Jul-1999Grace, Carol	Married to the Sheik
BD 726 - Casada Com Um Sheik	Sep-1999Shields, Martha	The Princess and the Cowboy
Sab.Noivas 114 - A Princesa e o Caubi	Nov-1999Bagwell, Stella	The Bridal Bargain
BD 741.1 - Selado Com Um Beijo	Jan-2000Cassidy, Carla	Waiting for the Wedding
Sab.Noivas 110 - Meu Primeiro Amor	Feb-2000Clayton, Donna	His Wild Young Bride
Sab.Noivas 117 - Corao Selvagem	Apr-2000Colter, Cara	First Time, Forever
Julia PP 033 - Conto De Fada Existe	Aug-2000Grace, Carol	Fit for a Sheik
Julia 1131 - Sob Medida Para o Sheik
	Feb-2001Wallington, Vivienne	Claiming His Bride
Sab.Noivas 120 - Um Segredo Entre Ns	Apr-2001Bright, Laurey	Marrying Marcus
Sab.Noivas 139 - Eu Sei Que Vou Te Amar	Dec-2001Bright, Laurey	The Heiress Bride
Sab.Noivas 138 - Casamento de Princesa	Mar-2002Smith, Karen Rose	The Marriage Clause
	May-2002
         
        















 CAPITULO I

	Eu sei que  importante  disse Cassidy, endireitando a peruca vermelha , mas estamos perto do Haloween, e voc sabe que esta  a poca do ano mais movimentada para mim.
William, incomodado com a teimosia da irm, respirou fundo, pensou e, enquanto ajeitava sua gravata de seda, disse:
Vou lhe contar por que preciso tanto desse favor.
Vendo-o to aflito, Cassidy pensou que, se continuasse levando tudo to a srio, William acabaria tendo um ataque cardaco antes dos quarenta anos.
Que tal esta? E bem baratinha.
Nada o irritava mais que encontrar sua irm vestida com uma das fantasias da loja. Era quase impossvel conversar com ela vestida de boneca. Puxando-a pelo brao, William insistiu:
	E o meu chefe, Cass! Ele est desesperado. E recomendei voc, pessoalmente. Por piedade, no me deixe encrencado!
Pobre William, sempre em sobressalto, com medo de que a prpria famlia o deixasse embaraado... Tudo bem, talvez seus parentes fossem um tanto excntricos, mas sempre se comportavam bem. Ou quase sempre.
Ela sorriu, conciliadora, esquecendo-se completamente do rosto pintado de branco, dos clios imensos e da boca com formato de corao.
	Prometo, querido irmo, que o sr. Paul Barclay Spencer receber um tratamento de rei. E prometo que encontrarei para ele um traje que impressionar Betty. Palavra de honra de irm.
William ficou apenas um pouco mais tranquilo.
	O nome correto  Bettina  frisou.  Bettina Lincoln. E, se tudo correr bem, ela ser a sra. Paul Spencer at a primavera.
	E o sr. Spencer ter salvo os negcios da famlia  Cassidy disse, para provar que tinha prestado ateno nas palavras do irmo.  E dar esse crdito a voc.
	Sim, se voc no arruinar tudo. Agora, seria pedir demais que voc tirasse essa roupa ridcula antes que ele chegue?
Cassidy fez que sim. Arrancou a enorme peruca e, contrita, jurou:
	Vou abandonar meu traje de Raggedy Ann e troc-lo por roupas adequadas para receber seu patro. Mais: encontrarei algo para ele usar e conquistar o corao, e tudo o mais, da glamourosa, fantstica srta. Lincoln. Satisfeito?
William empertigou-se, alisou as dobras do terno italiano impecvel e, assentindo, recomendou:
S para lembrar: estou contando com voc.
O sorriso de Cassidy foi bastante encorajador. Ele lanou-lhe um olhar de aprovao. Mas a alegria de Cass se foi quando percebeu que, ao sair, William contemplou com desprezo tudo  sua volta.
Sinceramente, ela no sabia qual o problema em ser figurinista. Figurinistas, por definio, desenham, costuram e, se tiverem sorte, montam suas prprias lojas e fazem tudo dentro delas, o que inclui usar as prprias criaes. Mesmo que sejam fantasias. Quem usaria roupas que nem o prprio figurinista usa?
Mas William no era capaz de entender isso. Alis, no percebia nada a no ser o prprio mundinho. Ainda assim, reletiu Cass, a famlia Penno era uma cruz para o pobre William carregar, e ela no queria aumentar esse peso.
O irmo no entendera nada quando, um ano antes, os pais resolveram pedir divrcio. Alvin e Anna Penno eram incompatveis, e depois de trinta e cinco anos isso ficou ainda pior. Cassidy sempre percebera esse detalhe, mas William no. Era impossvel, para ele, admitir que os pais, depois de separados, haviam conhecido a felicidade... e que nada disso tinha a ver com os filhos.
Cass supunha que a aproximao dele com o cl Barclay Spencer era parte do problema. Naquela famlia, os negcios vinham em primeiro lugar. Como seria fazer parte de um grupo assim?
Para William, que os admirava e invejava, devia ser maravilhoso. E certamente fora isso que Paul Spencer, presidente e principal responsvel pelo sucesso das Panificadoras Barclay, pensara ao ficar noivo de sua sobrinha de criao. Principalmente depois que ela recebera algumas cotas da companhia, herdadas de Chester Barclay, av de Paul. O casamento manteria os negcios na famlia.
Ela no conseguia entender por que a "adorvel e sofisticada" Bettina, como dizia William, estava to relutante em se casar com o primo, Paul. Especialmente considerando que ele havia rompido um trrido caso por causa do testamento, poucos meses antes.
Cassidy imaginara que Bettina apostaria tudo naquele casamento. Mas talvez estivesse errada.
Pondo os problemas dos Barclay de lado, chamou Tony, que estava do outro lado do novo mostrurio, o 'Noites na Arbia". Ele saiu do que agora era o picadeiro de um circo, um dos quatro show-room de que a loja dispunha.
	Chamou, chriel  perguntou com sotaque fran
cs carregado.
Era seu dia de Maurice Chevalier. Um dia antes, fora Clark Gable. Ele tinha convico de que em breve, terminando a faculdade, seria um astro. Deixaria Dai-las e iria para Los Angeles ou Nova York. No decidira ainda se preferia o cinema ou o teatro.
Aos vinte e cinco anos, os sonhos com o estrelato de Cassy tinham sido trocados por uma carreira satisfatria como figurinista. Sentia-se dcadas mais velha que seu assistente, Tony Abatto, de vinte anos.
 Vou me trocar. Tome conta da loja. Estou esperando um cliente.
	Oui, mademoiselle. Com minha vida guardarei todos os seus sonhos, amour...
	Melhor expressar seu amour de outra maneira ou perder o emprego  disse ela, olhando para a confuso que havia no cho.
	Raggedy Ann, essa linda boneca no est agradando mais?  Tony perguntou.
	E a meu irmo que no agrada  respondeu ela, imaginando as caretas que Tony faria s suas costas.
Para ele, William no passava de um "filisteu". E, mesmo que essa tambm fosse a opinio dela, no suportava que ningum falasse nada sobre o irmo. Antes de fechar a cortina do provador, gritou:
	Comece a separar as araras!
	De que vai precisar?
	Oh, nada alm do usual para homens. O tipo msculo de sempre.
	Um Drcula-lutador-piloto-pirata saindo...
Cassidy suspirou, resignada. Tinha uma fantasia de Peter Cabea de Abbora perfeita para ser usada numa festa antes do Dia das Bruxas. Mas certamente o chefe
de William no seria capaz de vestir algo to original. Por outro lado, todos os Drculas, soldados ou piratas disponveis j haviam sido reservados. O que quer que Paul Barclay escolhesse para fantasia, o resultado seria o mesmo: ela teria de sentar na mquina novamente e costurar. Logo agora, que pensava estar livre do atropelo... Bem, podia dormir na ltima semana de novembro, se vivesse at l.
Deu uma ltima olhadela no traje de boneca de pano, que chamara de Raggedy Ann. Era quase um smbolo, com suas tranas vermelhas e a roupa azul e branca. Comeou tirando o avental e o vestido, depois as meias coloridas e o sapato.
Uma cala jeans e o suter cor de mostarda sobre a camiseta, os cabelos castanho-dourados presos num elstico, e l estava Cassidy ao natural, mas com o rosto ainda maquiado. A fantasia de boneca Raggedy Ann foi devolvida  arara a contragosto, e s depois Cass voltou  loja.
Para ela, a sesso de maquiagem era sua hora favorita. Isso porque l estavam muitos dos objetos que pertenceram  barbearia de seu av. A comear pela esponja grande de talco.
Sentada na imensa cadeira de couro verde, onde tantas vezes vira o av trabalhar, comeou a tirar a pintura. Com a ponta dos dedos espalhou o creme de limpeza, e seu rosto se transformou numa massa cinza-avermelhada.
Um leve movimento pelo espelho e Cassidy percebeu que no estava s na sala.
	Maurice!  esbravejou.
	Um cliente quer v-la, chrie.
Era ele, o patro de William. Sem dvida, bastante atraente. Os cabelos eram escuros e o corte, clssico. Os olhos azuis eram emoldurados por clios longos e castanhos, e ela podia apostar que tinha a barba escura, pela sombra que percebia naquela regio do rosto. Tinha uma covinha no queixo e duas no rosto, quando sorria.
Estendeu a mo longa e bem-feita para Cassy.
	Cassidy Penno, presumo.
Num gesto mecnico, ela correspondeu ao cumprimento.
	Sim.
	Paul Spencer.
Embaraada, Cass pegou a toalha e tentou limpar o rosto.
	Desculpe-me, sr. Spencer. Estava vestida de Raggedy Ann quando meu irmo avisou-me que viria. Achei que teria tempo de tirar a maquiagem, mas Tony provavelmente quis me envergonhar. Ele no suporta William, e... William no entende por que no o despeo.
	E?  Tirando a toalha das mos de Cassy, Paul passou a esfregar-lhe o rosto, energicamente. Estava me explicando por que no despede o rapaz.
	 preciso ter certas habilidades para trabalhar num lugar como este.
	Mesmo?  A limpeza estava quase completa.
Compenetrado, Paul Spencer usava lenos umedecidos para finalizar a tarefa de devolver  jovem suas prprias feies.  Que tipo de habilidades so essas?
Incomodada com o olhar fixo em seu rosto, Cassidy virou-se para o espelho e, de posse de um tnico adstrgente, fez meno de dispensar o auxlio de Paul Spencer.
	Algum que ame o teatro  respondeu.  Geralmente atores. Algum que goste de se fantasiar. Algum que trabalhe por pouco dinheiro.
Pelo espelho, podia ver o rosto de Paul, e aquele jeito meio irnico a punha nervosa. William a mataria se soubesse o que tinha acontecido ali. Mais uma vez o coitado fora trado pela prpria famlia...
Com as faces limpas mas com a dignidade arranhada, Cassidy soltou os cabelos, que caram em ondas sobre seus ombros. Virando-se, encarou o sr. Spencer.
	Ficaria muito grata se o senhor no mencionasse este episdio para William. Ele  um irmo maravilhoso, mas...
	Empertigado  emendou Paul Spencer.  Sem senso de humor. Pernstico.
A reao de Cassidy foi de puro terror aos adjetivos usados por Paul para descrever seu irmo. No esperava nem em sonhos ouvir isso. Spencer caiu na risada com o olhar horrorizado da jovem.
	Relaxe, srta. Penno. Tenho seu irmo na mais alta conta. Ele no s  um brilhante executivo como tambm um dos mais proeminentes membros da sociedade. S que leva a vida e a si mesmo muito a srio.  E, fazendo um gesto como se fechasse a prpria boca a zper, concluiu:  William no ouvir uma palavra sobre voc me receber fantasiada de monstro.
	No fiz isso!
	Claro que no  concordou ele, rindo.  Estava brincando.
	Oh!
O riso deixava  mostra dentes lindos e brancos. Num passe de mgica, Cassy foi contaminada pelo bom humor daquele homem, e soube que no apenas podia confiar nele como que essa confiana era mtua. Mais descontrada, riu.
	Desculpe-me. Eu devia estar medonha.
	Digamos que eu jamais iria imaginar que havia um rosto to bonito debaixo daquela tinta toda  gracejou ele.
Antes de ficar feliz com o elogio, Cassy lembrou-se de que podia ser mais uma das gozaes de Paul.
	Voc, hein? Na minha profisso,  bom ter um rosto comum como o meu. Funciona como uma tela em branco para um pintor: aceita tudo.
	Quem disse que seu rosto  comum? William?
	No, claro que no.
	Voc tem uma beleza clssica, de traos finos e delicados  insistiu Paul, deslizando o dedo sobre sua testa, descendo pela curva do nariz, atravessando a curva dos lbios at encontrar o queixo.
Cassidy estava hipnotizada. Nunca ouvira de ningum que era bonita. Estava quase acreditando no que ele dizia quando a realidade a chamou de volta.
Saindo do transe, Cass balanou a cabea e indicou a sada para a outra sala. O momento mgico se fqra.
	Vamos ver as roupas?  A arara estava ali perto, e ela rezou para que Tony tivesse tido bom senso na escolha dos trajes. Puxou um banquinho e, com ar solene, comeou:  Se quiser se sentar, sr. Spencer, eu lhe mostrarei alguns dos nossos trajes masculinos mais populares.
	Paul. Eu prefiro que me chame assim.
"Isso no vai dar certo", pensou Cassidy.
Limitou-se a sorrir e avanou para a primeira fantasia.
	Esta  a mais requisitada nessa poca do ano. Conde Drcula.
Paul ergueu uma das sobrancelhas. ,    Muito dramtico.
Num floreio, Cassy devolveu-a ao cabide e trouxe outra:
	Que tal um pirata? Corsrios so romnticos e agradam s moas. Completa, com papagaio, espada e at um brinco.
	No tenho orelha furada.
	Talvez um piloto de guerra... O general Patton?  Negativas sucessivas  a fizeram enumerar:  Nem mesmo um soldado da Guerra Civil? Rebeldes? Ianques?
	Sinto. No fao o gnero militar. Especialmente da Guerra Civil. Quero expandir nossos negcios para o Sul.
	Nem ndios ou ciganos, suponho. Hum... Rodolfo Valentino? O imperador da China?  brincou ela.
	Nem Fidel Castro ou Stalin, caso tenha-os em mente.
Uma ideia iluminou o rosto de Cassy. De repente, era como se tivesse achado a inspirao.
	Stalin, Rssia... Cus! Lembra-se de um filme antigo, em que Tony Curtis fazia o papel de um cossaco? Yul Brynner era o pai dele, e havia cavalos e mais cavalos...
	Taras Bulhai  exclamou Paul, entusiasmado.
 Claro que me lembro! O personagem de Tony Curtis no morre no final?
	E a mocinha fica a seu lado.
	 isso!  Pela primeira vez algo o animava.  Deixe-me ver a roupa.
Cassidy se deu conta que s na sua imaginao havia algo assim.
	Na verdade, no a tenho. Mas posso fazer para voc.
	Seria ento um traje exclusivo, s para mim?
Ela relaxou e sorriu, mesmo sabendo que no teria tempo para mais nada, pois era preciso desenhar, procurar os materiais adequados e costurar. Suspirando, lembrou-se de que faria aquilo por William e resignou-se.
	Exatamente.
	Fantstico!  Paul parecia ter achado o que que ria.  Como comeamos?
	Pesquisando.
	Pesquisa? Otimo! Onde procuro? Quero dizer, qual  a poca?
Ela piscou duas vezes, sem entender o que ele queria dizer.
Esse  o meu trabalho. No  necessrio que faa nada.
	Bem, e quem me garante que voc no vai errar?
Num muxoxo, Cassy concordou.
	Bem lembrado.
Paul caiu na risada.
	Confio em voc, mas sou muito purista, sabe? E quero saber do que estarei vestido, caso me perguntem.
Cassy estava antevendo como seria a tarefa, cheia de palpites e de interferncias... Teria o dobro do trabalho. Mas a essa altura no havia muita escolha.
	J entendi. Quando quer ver os desenhos? No final da semana?
	Quinta-feira? Sexta  pssimo para mim.
	Certo. Fim da tarde?
Pensando um pouco, Paul respondeu:
	No quero prend-la at tarde. Venho na hora do almoo. A que horas Tony almoa?
	Uma hora est timo.
	Trago algo para comermos aqui. Ainda bem que voc no tem problemas com excesso de peso...  E, olhando para o relgio:  Tenho de ir. Quinta,  uma. Adorei conversar com voc.
E correu porta afora, deixando-a sozinha, com o corao disparado. Cassy tinha um almoo marcado com Paul Spencer Barclay. E estava deslumbrada.
S quando se acomodou atrs do volante de seu Jaguar preto foi que Paul Spencer se deu conta de que devia estar fora de si ao insistir tanto em almoar com Cassidy Penno.
Era linda, solteira, adorvel. Uma companhia divertida e inteligente. No que essas qualidades pudessem mudar o fato de que ele estava praticamente noivo de Bettina. Praticamente, e isso no era muito agradvel.
Estava resolvido que ela seria sua esposa. Era a nica coisa a fazer, considerando que seu av havia deixado trinta por cento das aes das empresas Barclay para Bettina, a mesma porcentagem que coubera a ele. Paul possua, porm, outros dez por cento das cotas. O restante estava dividido entre os outros membros da famlia.
Seu tio Cari, e a me de Bettina, Jewel, possuam dez por cento. Seu tio John, solteiro convicto, outros dez por cento. Mais dez por cento estavam com a viva de um tio falecido, Mary, e sua filha, Joyce, agora chamada sra. Joyce Spencer Thomas.
Ningum de fora da famlia jamais pusera as mos no patrimnio desde que seu bisav fundara as Empresas Panificadoras Barclay. Costumeiramente, os parentes dividiam os bens entre seus filhos, ao atingir certa idade. No entanto, isso no acontecera com os Barclay. O bisav e o av de Paul haviam reservado para si a maioria das aes.
Quase todos os membros da famlia abriam mo de um envolvimento mais direto com os negcios. Sentiam-se gratos por no precisar preocupar-se com detalhes como de onde vinha o dinheiro que lhes enchia os bolsos regiamente.
Paul fora uma exceo. Possua um talento especial para os negcios e vontade de exercer essa vocao. Aos poucos foi galgando os degraus da diretoria e assumiu a presidncia quando o av se aposentou. Chegou a cogitar a possibilidade de herdar a maior parte das aes, e assim ser o nico acionista capaz de dirigir as empresas. No apenas ele, como a famlia esperava que isso viesse a acontecer, uma vez que todos confiavam nele para continuar a encher seus bolsos com altas quantias.
Fora ento que seu velho av lhe pregara uma pea.
Na verdade, parte da culpa cabia ao prprio Paul. Sempre soubera que seu estado civil no agradava ao
av. Aos trinta e nove anos, a maioria dos homens j se casara ao menos uma vez. Mas no ele. Ainda no encontrara a mulher certa. Talvez ela nem existisse. No que soubesse descrev-la, mas tinha certeza de que nenhuma das conhecidas preenchia os requisitos. Nenhuma lhe despertara interesse. No at encontrar Bettina.
Jamais deveria ter se deixado seduzir por ela. Por outro lado, que homem so poderia resistir a uma belssima mulher, que invade um escritrio vestida apenas com uma capa de chuva, meias de seda, ligas e saltos altos?
No, no era to grave sucumbir a essa tentao, mesmo sabendo que muito daquilo fora obra de cirurgies plsticos. Seu grande erro fora declarar que fizera tudo por pura distrao, e que era perda de tempo esperar algo alm disso.
Em pouco tempo, o que era diverso virou um pesadelo. Quando percebeu que Bettina poria as coisas em outra perspectiva para a famlia, Paul tentou terminar com aquilo.
Na frente dele, Bettina encarou o rompimento com naturalidade. Mas a verso que apresentou  famlia foi outra. No papel de vtima abandonada pelo primo, chorou meses e conseguiu que todos virassem as costas a Paul.
Alm disso, a famlia comeou a considerar que um enlace entre ambos seria perfeito, ideal. Bettina tinha doze anos quando tio Cari se casara com sua me. Dezesseis anos depois, tornara-se querida, parte da famlia, at porque Cari no tivera filhos biolgicos. O casamento entre eles faria de Bettina uma legtima Spencer Barclay.
Na superfcie, uma mulher perfeita, adorvel, sofisticada, companheira, divertida... Porm, s superficialmente. Sob aquele verniz se escondia um poo de ambico, de inteligncia fria e calculista. Era dissimulada a ponto de enganar a todos, t, e principalmente, os mais prximos. S a prima Joyce enxergava um pouco da verdade. Mas de que isso adiantaria? Bem casada com o responsvel pela produo da fbrica, a padaria propriamente dita, Joyce s pensava em ter o primeiro filho.
Se, em vez de ter bancado o cavalheiro, Paul tivesse contado ao av, em detalhes, tudo o que acontecera entre ele e Bettina, certamente no estaria naquela situao. No havia escolha. A famlia dependia dele. E Bettina usaria as aes que herdara da pior forma possvel.
Paul passara meses procurando uma sada legal para que os negcios no fossem afetados por ela, mas finalmente se rendera s evidncias. Nada poderia fazer, a no ser casar-se com a prima.
Em especial porque aquele era um momento delicado. Os pes Barclay iriam ser distribudos em todo o pas, e o sucesso dessa estratgia dependia de uma posio slida e confivel da empresa. Isso faria a diferena entre a fortuna ou a bancarrota.
Como acionista, Bettina comeara a fazer uma srie de exigncias ridculas, e exorbitantemente caras. Fora ento que ele a pedira em casamento.
O momento da vingana chegara. E no bastava isso. Ela queria a revanche por tudo o que passara. Daria uma chance a Paul, desde que ele se humilhasse perante toda a famlia e a sociedade.
Esse baile a fantasia era para isso. Se algo a desagradasse, no dia seguinte sua reputao estaria arrasada. A prpria Bettina teria o maior prazer em fazer isso.
Bem, se era esse o jogo, ele, Paul, tambm tinha seus truques. E a entrava Cassidy Penno.
Mas no ia estragar, com essas consideraes sobre negcios, um encontro com Cassidy. Tinha de parar de olhar para ela com tanto interesse. Essa era a pior hora para se interessar por uma mulher.
Teria o cuidado de explicar a situao para Cassidy, em detalhes. Tinham potencial para transformar aquele trabalho no comeo de uma amizade agradvel. Se fosse o caso, poderiam usufruir da companhia um do outro, sem que isso afetasse a intimidade de ambos. Ou seja, sem envolvimento sentimental.
Poderiam ser amigos. Por que no? Almoar com ela seria apenas um divertimento, nada alm disso. E ele poderia providenciar um cardpio que traduzisse essa inteno.
Planejar esse almoo o deixou animado. Homens prestes a se comprometer merecem um pouco de diverso. At homens casados fazem isso. Especialmente se a esposa for Bettina Lincoln.
Uma coisa, porm, preocupava-o, e cada vez mais. Temia no conseguir separar a obrigao da diverso. Ou o possvel do desejvel.

CAPITULO II

Cassidy bufava enquanto os garons iam e vinham dentro da loja. Sua mesa de trabalho estava coberta de linho adamascado. Preocupada, mas tambm excitada, ela assistia a tudo.
Almoo, Paul dissera. Mas aquilo era um banquete: salada de frutas, pes crocantes, queijo brie, carne  Borgonha e, para acompanhar, um saborosssimo vinho francs. Na sobremesa, chocolate e creme. E tudo servido por um garom vestido de maneira impecvel.
Cassidy sorria de prazer ao ver os pratos dispostos em fila sobre um aparador improvisado. Os rechauds, que mantinham a comida quente, eram de prata.
Por que Paul Spencer agia assim?
Ela no passava da irm de um de seus funcionrios, mas recebia tratamento de rainha. O comportamento de Paul era o de quem corteja uma mulher.
Sua primeira preocupao foi com William. O que o irmo diria?
Esqueceu o assunto quando Paul Spencer entrou na sala. Ele falava ao telefone celular, mas sorriu, desculpando-se pela indelicadeza. Fez questo de que Cassy ouvisse o teor da conversa com sua secretria.
 Certo, Gladys. Entendi. Vou desligar. No, no voltarei  tarde. Anote os recados.
Guardou o telefone no bolso do palet e observou Cassy. Ao v-la ali, em meio a toda aquela pompa, seu rosto se iluminou. Deu-se conta de que tambm ela sentia um imenso prazer por estarem juntos de novo. Mas sua parte racional insistia em lembr-lo de que era um empresrio poderoso, que contratara os servios de uma profissional. E que ela o atendia por causa do pedido de William.
	Voc no devia ter tido todo esse incmodo.
	Incmodo nenhum.  Ele inspecionou as travessas de comida.  Hum... Parece timo!
O garom sorriu, satisfeito, enquanto afastava a cadeira para Cassy. Sem perceber, ao sentar, ela bateu no p da mesa, fazendo voar para longe os talheres da salada. Morrendo de vergonha, assistiu ao garom recolh-los. Paul conteve o riso.
	Achei que fosse encontr-a fantasiada de salada, ou algo assim...
Cassy ficou ainda mais vermelha.
	Oh, eu no faria isso.  Ouvindo-o rir, sentiu-se mais  vontade para dizer:  Na verdade, nunca ouvi falar de uma fantasia prpria para almoos.
	Pode ser uma boa ideia para sua prxima coleo.  O jeito cmico e srio de Paul ao dizer esse tipo de coisa era hilariante. Cassy logo comeou a rir.  Agora est melhor.  Com os cotovelos sobre a mesa, ele se aproximou de Cass.
O garom os servia com elegncia. E uma sbita timidez tomou conta de Cassidy. Sentia que Paul a cortejava. Mesmo que repetisse para si mesma um sem-nmero de vezes que aquilo era apenas produto de sua imaginao, que ele estava noivo, no conseguia relaxar.
	Quer ver meus esboos?
	Estou faminto. No momento, s quero comer. E olhar para voc.
	Ah...
Completamente sem jeito, Cassy no sabia onde pr as mos, ou para onde olhar. Levou alguns segundos at conseguir se concentrar na salada de frutas, que continuava intocada.
	Est tendo dificuldades com os esboos?  Paul perguntou entre uma garfada e outra.
Esse assunto a fascinava. Abandonando de novo os talheres, Cassy sorriu:
	No, de jeito nenhum. E muito fcil imaginar voc fantasiado.
	E isso  bom?
Como explicar-lhe como era fcil fit-lo e v-lo usando roupas de cossaco? Durante a pesquisa, ela fechara os olhos e soubera exatamente o que desenhar.
	Sim,  muito bom. Quando crio uma roupa, penso num personagem para dar vida  fantasia. Na maioria das vezes no h nada em comum entre o que eu imaginei e a realidade de quem vai usar o traje. No seu caso, isso no acontece. Voc  o personagem.
	Ento acha que serei capaz de dar vida a seu talento?
	De certa maneira, sim.
O que ela queria dizer era que, ultimamente, Paul Spencer era sua nica fonte de inspirao.
	Se voc diz, eu acredito.  Paul estava grato a William por ter lhe falado de Cassidy, e gostaria de poder estar  altura do talento da moa. Tudo o que emanava de Cass era to doce e suave que ele no sabia mais o que dizer para expressar seus sentimentos.  Por que voc me faz to bem  alma?
	Eu?
Os olhos e sorrisos eram mais eloquentes do que qualquer palavra. Cassy nunca tivera um almoo to maravilhoso. Disse isso a Paul.
	Eu quis que fosse especial  confessou ele, olhando-a no fundo dos olhos.
E, se Tony no tivesse interrompido o enlevo, entrando estabanado com sua caracterizao de Charlie Chaplin, Paul a teria beijado. Foi isso que Cassy pensou, muito embora uma mesa os separasse. Uma mesa pequena, bem dito. O garom j tinha sumido com os pratos do almoo, e tudo estaria perfeito se Tony no fosse to irritantemente inoportuno.
	Telefone para o sr. Spencer.
A doura dos olhos de Paul desapareceu imediatamente, dando lugar  irritao e ao desapontamento. Por fim, resignado, perguntou:
	Quem ?
	No perguntei. Mas a voz  de mulher.
A tenso ficou evidente na expresso carregada de Paul. Com gentileza, dirigiu-se a Cassy, j em p:
	Sinto muito, mas  melhor ver de que se trata.
	Fique  vontade. Tony lhe mostrar o caminho.
Paul seguiu o assistente com evidente mau humor. Fazer o qu? Cassy sabia que os problemas dele no lhe diziam respeito. Estava ali apenas para fazer uma fantasia. Tendo isso em mente, dirigiu-se ao ateli e juntou os esboos que fizera. Para sua surpresa, em curto espao de tempo Paul reapareceu.
Durante os minutos em que esteve com os croquis nas mos, pouco ou nada se ouviu dele. Alguns murmrios, mas nada que indicasse sua opinio. Por fim, colocou-os na mesa e perguntou:
	Tem algum favorito?
Cassidy estranhou a pergunta, mas foi sincera:
	Este.  Apontou.
Paul olhou de novo, deu alguns passos para trs, olhou melhor e assentiu.
	Quando comeamos?
	Comeamos?
	Sim. Tenho de tirar as medidas, no ?
	Tem, mas...
Antes que ela pudesse ficar mais surpresa, Paul se adiantou:
Se pudermos trabalhar sbado, seria timo.
Cassy costumava trabalhar s meio perodo aos sbados, mas sugeriu:
	Sbado  tarde?
	Excelente. Almoamos de novo?
	Oh, no!  exclamou ela com veemncia, assustada com os gastos daquela refeio.  Quero dizer, no  necessrio. No mximo tomaremos um caf.
Ele sorriu de novo.
	Certo. Vou providenciar.
	Deixe-me faz-lo, por favor.
	Se insiste, tudo bem. s trs horas?
	timo. Quando chegar, ter de apertar, a campainha, pois fecho a loja ao meio-dia, no sbado.
	Vamos estar a ss ento?
	Com certeza.
Alvio e cumplicidade estamparam-se no rosto de Paul quando disse:
	At sbado, ento.
Cassidy se pegou sorrindo sozinha ao voltar para o ateli. Fosse o que fosse, era mtuo o que sentiam. Ento lhe ocorreu que deveria ter algo pronto quando ele voltasse, no sbado, e nem tinha se lembrado de tirar as medidas. Talvez no conseguisse fazer tudo em to pouco tempo. Mas confiava em seu instinto. Mesmo com a agenda lotada, daria cabo da tarefa, e no fundo sabia que, quanto mais depressa terminasse o trabalho, mais depressa teria Paul Spencer fora de sua vida.
O tempo frio, cinzento e chuvoso seria motivo mais que suficiente para fazer Paul ficar em casa e cancelar todos os compromissos, mas no aquele. Argumentou consigo mesmo que o encontro era profissionalmente importante, e que no iria  loja apenas para ver Cas-sidy. Mas no podia negar o desejo de ver aquela figurinista interessante, dona de um excelente senso de humor, gentil e... tmida. Era bonita de forma natural, sem artifcios, o que no deixava de ser engraado para algum com aquela profisso.
S mesmo isso para tir-lo de casa num dia como aquele, pensou enquanto tocava a campainha. Flagrou-se, no reflexo da vitrine, a arrumar os cabelos em desalinho, preocupado com a aparncia. "Negcios", pois sim... Rindo de si mesmo, ele balanou a cabea, imaginando o que teria Cassidy Penno para fazer com que se comportasse como um adolescente apaixonado.
Tocou a campainha novamente, e pareceu-lhe uma eternidade at ouvir a fechadura ranger e estar frente ao sorriso de Cassy.
	Ol  disse ela enquanto fechava a porta e apanhava-lhe o casaco.
	Oi.
A loja estava s escuras, e somente os reflexos da luz vinda de fora iluminavam o lugar. O suter amarelo de Cass tinha os punhos e o decote debruados em preto, realando a pele clara do colo e o dourado dos cabelos. O jeans justo modelava-lhe as pernas. Os lbios realados pelo batom de cor suave e o perfume, mistura de banho recm-tomado e um antigo Dior, magnetizaram Paul.
Perturbado, ele acordou do transe ao ouvi-la perguntar com voz preocupada:
	Algo errado?
	No.  Forando um sorriso, Paul percebeu que suas mos tremiam.  Acho que uma bebida quente me faria bem.
Num volteio galante, Cassy sorriu e ofereceu-lhe o brao.
	Por aqui, cavalheiro...
Paul riu e obedeceu. A seu lado percorreu a loja deserta, rindo das peas que via no caminho at o ateli. Um pouco daquela mulher estava em cada um dos ob-jetos. Ela dava um pouco de fantasia  realidade coti-diana, e Paul se deu conta de que a invejava por isso.
Cassy havia posto a mesa do ch num dos cantos da sala. A toalha, linda, parecia um xale antigo de seda colorida. Alm disso, havia guardanapos de linho rendados e colheres de prata antigas. As xcaras eram de fina porcelana chinesa. Um bule de cermica fumegava sobre um pequeno fogareiro de bronze. Para completar, leite, creme, acar e um lindo prato de cristal cheio de guloseimas.
Era bvio que ela tivera muito trabalho para fazer tudo aquilo, e s para agrad-lo. Muito mais bonito e valioso do que o almoo encomendado por ele. E sem dvida, muito, muito mais comovente, por ter o carinho das mos e do corao em cada detalhe.
	Est maravilhoso.
Cass ficou ruborizada.
	Obrigada.
Sorveram o caf, saboreando os bolos e as tortinhas diminutas, cheias de cremes e frutas. To cheias que Paul lambuzou-se ao provar uma delas. E, quanto mais ria, mais o creme escorria. Cassy tentou socorr-lo com um guardanapo, mas as gargalhadas impediram-na de ser eficiente.
	Isso, srta. Penno,  uma demonstrao de como os meninos brincam...  disse ele, espalhando creme no nariz de Cassy e colocando-lhe na boca um pedacinho de doce.
Ela ria tanto que nem percebeu quando Paul enlaou-lhe a cintura. S foi perceber o que estava acontecendo quando se viu abraada por ele.
Foi como se uma descarga eltrica os atingisse. Nesse instante, ao admirar os sensuais lbios femininos, Paul soube quanto a desejava. A boca entreaberta e o hlito doce eram convites a um beijo. O beijo que ele ansiava desde que a vira pela primeira vez.
Esqueceu tudo para deslizar a ponta dos dedos naqueles lbios antes de t-los nos seus, no mais doce beijo da sua vida.
Cassy se rendeu  urgncia da carcia, entregue ao momento. Mas aos poucos foi se afastando, e, com gestos precisos, limpou o rosto, evitando encar-lo. Ambos sabiam que era tolice comear algo sem futuro, e aquele beijo fora um erro. Para ambos. Isso estava escrito no olhar verde, intenso, de Cassidy. Paul sentiu-se pssimo.
	Desculpe-me.
	Tudo bem.
	No, no est tudo bem. Costumo ter mais bom senso.
	Voc deve ser se sentido acuado, s isso...
	William contou-lhe algo?
Cassy fez que sim.
	Ele me disse que, se voc no desposar uma certa moa, o testamento de seu av o deixar sem muita coisa.
	William se referia a Bettina  contou ele com amargura.
	Bettina, a da festa a fantasia de Halloween  frisou Cassy.
Apesar de tudo, Paul sorriu. O jeito como ela falava era suave e gentil, como um raio de sol no meio do temporal que viria a ser seu futuro com Bettina. No deserto que estava vivendo, Cassy era um osis bem-vindo. Como virar as costas para a nica coisa boa que lhe ocorria?
Riram juntos, pelo puro prazer de rir. Paul esperou que ela terminasse seu caf para dizer:
	Vamos ao trabalho?  Ficou impressionado com a eficincia com que Cassy lhe tirou as medidas.  Voc  mesmo boa nisso!
	Faz parte do meu trabalho.
Quando foi tirar as medidas do peito largo, Cassy soltou sem querer a fita mtrica, e acabou encostando o corpo no dele. Petrificada, deixou a fita no cho e ficou imvel. Paul no sabia o que estava acontecendo, mas resolveu confiar nela. Ento Cass, como que acordando de um sonho, pegou a tira de plstico e ps-se a medir, de joelhos, a altura da cala.
Tomando-lhe as mos, Paul abaixou-se, abraando-a carinhosamente. Cassy abandonou a cabea no colo protetor e deixou-se ficar assim por longo tempo. De olhos cerrados, ambos permaneceram quietos, num silncio cheio de melancolia. Por fim, Paul beijou-a de leve na testa e disse:
	No tenho esse direito. No h nada que eu possa fazer. Os negcios dependem desse casamento, e a minha famlia inteira depende disso.
	Eu sei  assentiu Cassy num murmrio quase inaudvel.
As mos de Paul deslizaram pelas costas femininas. Apertados contra seu peito, os seios eram uma tentao. Fechando os olhos mais uma vez, Paul imaginou o corpo nu a seu lado.
	Gostaria de t-la conhecido h muito mais tempo.
	Antes de Bettina, voc quer dizer.
	Ainda bem que voc sabe de tudo  ele comentou, rindo com ar malandro.  No sei se aguentaria a tentao de mentir para t-la comigo.
Um brilho de felicidade tornou ainda mais verdes os olhos de Cassidy. Brincando com a fita mtrica, ela baixou a cabea, meio tmida, ao dizer:
	Talvez voc nem me notasse.
	No diga isso.
	Verdade. Sou do tipo de mulher que passa despercebida.
Acariciando-lhe o pescoo e os ombros, Paul sentiu a pulsao acelerada.
	At mesmo para nosso amigo "Charlie Chaplin"?
Ela fez uma careta e explicou:
	Tony nunca se interessou por mim. Ele pensa que as virgens, como eu, so frustradas. No se arrisca a chegar perto.
Virgem! Paul quase teve um colapso. Nem se lembrava qual fora a ltima vez que ouvira falar nisso. Acostumado com a sofisticao das mulheres manipuladoras, quase fora cruel com a mais doce das criaturas. Talvez merecesse algum como Bettina. Cassidy Penno merecia, com certeza, algum livre para am-la e cuidar dela como um tesouro. Com voz embargada, disse-lhe:
	Prometa que vai se guardar para algum melhor do que aquele impostorzinho.
	Tony Abatto? Prefiro entrar para um convento.
	Oh, no exagere.
Com ar solene, Cassy levantou a mo.
	Eu nem poderia. No sou catlica.
Riram mais uma vez. Ento Paul se levantou, pegou a fita mtrica e, com ar srio, pediu:
	Deixe que eu mesmo meo a cala.
Cassy concordou. Limitou-se a anotar as medidas.
	No  preciso que venha aqui at o momento da prova. No quero causar problemas desnecessrios.
	Esquea. Quero vir.
	Ento, vou cortar o tecido na segunda-feira. E agora, fora daqui. Ambos temos mais o que fazer  brincou ela.
	Segunda-feira, s seis, estarei aqui. E depois jantaremos. J estou ansioso por isso.
	Eu tambm. Bem, vou acompanh-lo at a sada.
	Est bem.
A chuva cessara e um vento frio fazia a respirao sair em lufadas. Depois de fechar a porta, Cassidy disse um simples:
 Obrigada.
E saiu caminhando.
Paul viu-a desaparecer na esquina e, respirando fundo o ar gelado, saboreou aqueles poucos instantes de liberdade.
CAPITULO III

Ansioso por rever Cassy, Paul foi pontualssimo na segunda-feira. Antes de cortar a fantasia, Cassidy fez questo de que ele escolhesse os tecidos. Espalhados pelo ateli, havia quatro combinaes de cores e tramas com detalhadas explicaes sobre como e onde seriam usados e davam uma ideia do resultado final.
Paul olhou-os de relance e perguntou:
	Qual voc prefere?
Cassy apontou para uma combinao de tons de terra, azul e vermelho queimado. Por poucos segundos Paul estudou a escolha antes de dizer:
	Perfeito! Agora vamos jantar, estou faminto.
	Voc est sempre faminto?
	Ultimamente, sim.  Todo o seu apetite fora despertado na ltima semana.  Vamos, pegue seu casaco.
Foram a um lugar que mais parecia uma casa no-turna. Passava das seis e meia e j se ouvia uma banda de jazz animadssima. Havia uma fila considervel para entrar.
Segurando Cassy pela mo, Paul deu a volta no prdio, em direo  porta dos fundos, local reservado aos caminhes de bebidas. Um vozeiro os fez parar.
	Spencer! Por que no avisou que vinha?  Um negro, de braos abertos e sorriso idem, os recebeu.
	Achei que podia arriscar, mas pelo visto no adianta chegar cedo... Nunca vi tanta gente a essa hora.
	Deixe comigo. Quem  a bela senhorita?
Passando o brao pelos ombros de Cassy, Paul ficou feliz em apresent-los:
	Esta  minha amiga Cassidy Penno. Cass, este velho malandro  Hoot.
	Amiga, hein?  Hoot comentou enquanto olhava para Cassidy.  Belo casaco. Gostei.
	Obrigada.
Ela sorriu, divertida com a figura grande e simptica. A roupa branca era de mestre-cuca, e nele fazia bela figura.
	Bebem o qu?  por conta da casa  ofereceu Hoot.
	Estou dirigindo. Nada para mim.
	No bebo muito, sr. Hoot  agradeceu Cassy.
	S Hoot, sem o "senhor". Menina, gostei de voc. Vai tomar um drinque especial, com pouco lcool. No aceito recusa.
	Fico lisonjeada.
	Vamos, sigam-me.
Por cima do ombro, Hoot lanou um olhar de aprovao para Paul, sem que Cassy percebesse. O corredor levou-os  cozinha e a outros pequenos cmodos, at alcanar a porta do escritrio de Hoot. Pequeno e confuso, o aposento tinha uma escrivaninha e um balco como mveis principais. Um sof de couro surrado e banquetas completavam o mobilirio. Nas paredes, fotos autografadas de grandes nomes do jazz. Cassy reconheceu a maior e mais bonita delas, Billie Holiday, a cantora negra que sua me lhe ensinara a amar desde pequena.
	C estamos. Agora me contem... Como se conheceram?
	Meu irmo trabalha para Paul.
	Cassidy  minha figurinista.
Caram os trs na risada, em alto e bom som. Hoot mostrou que sua curiosidade no tinha sido satisfeita com nenhuma das respostas. Paul pigarreou, mas Hoot foi mais rpido e sua lngua afiada no poupou ningum ao dizer:
	Figurinista... Quer dizer que agora fantasia se chama figurino? Ento Bettina pegou voc com essa histria de baile  fantasia...
	Tenho sada?
Hoot juntou as mos em sinal de contrio, e com deboche comentou:
	Coitadinho dele!
	Acho que vi seu nome na lista de convidados, se no me falha a memria...  revidou Paul.
	J tem fantasia, Hoot?  indagou Cassy.
	Claro, no est vendo? Vou de mestre-cuca.
	Espertinho...
	J tem o chapu? E seria bom uma grande panela ou frigideira para dar um toque extra.
	Grande ideia! Quanto ao chapu, no tenho, mas posso comprar.
	Por que no aluga? Terei prazer em fornecer tudo por cinco dlares: chapu, frigideira e maquiagem.
	Otimo negcio. Fechado, senhorita.  E, olhando para Paul:  Essa moa  um doce. Bem melhor do que a enjoada Bettina.
	Acho que no vamos ficar para o jantar  disse Paul, com azedume.
	Deixe de besteira, meu amigo. Tero a melhor mesa da casa, ou no me chamo Hoot. Olhe, garota, a famlia desse rapaz  formada por um bando de sanguessugas, se quer saber.
	Hoot...
Mas o protesto de Paul no adiantou de nada.
Hoot estava disposto a tornar pblica sua opinio sobre os Barclay.
	H muito tempo houve uma luta entre eles para decidir quais seriam os novos rumos dos negcios da famlia. Como nenhum deles parecesse capaz de tocar a empresa, pegaram nosso amigo aqui para o sacrifcio.
	Sacrifcio?
	No  bem essa a verdade. O que aconteceu foi que decidi tomar a frente dos negcios para defender meus interesses. Ningum me obrigou a nada. Ao contrrio.
	Sacrifcio, sim, foi o que eu quis dizer  afirmou Hoot.  Os negcios vo bem porque voc se mata de trabalhar. Enquanto isso, os outros membros da famlia vivem como nababos,  custa do seu esforo. Para Paul ficam as dores de cabea, e para eles vo os cheques polpudos.
	Mas tenho liberdade total na empresa.
	 assim que v as coisas? Para mim voc est de mos atadas.  E olhando para Cassidy:  Abandonaram-no sozinho e fazem de conta que no percebem o que est acontecendo. Esse casamento  pior, para meu amigo aqui, do que o cadafalso.
	Hoot!  censurou Paul.
	Est bem, a moa em questo  uma dama...  irnico, Hoot corrigiu.
	Chega de sermo. Estou faminto e no pretendo arruinar minha noite com essa conversa. Posso jantar aqui ou no?
	Por favor... E no se esquea de meu chapu, senhorita. Mande-o por Paul. E pode cobrar dele tambm.
Cassidy riu, divertida, enquanto era conduzida para o salo. No meio do caminho, Paul tomou uma atitude inesperada: empurrou-a contra a parede e tomou seu rosto nas mos. Foi tudo muito rpido, mas mesmo assim Cassy sabia o que ia acontecer.
No ofereceu resistncia ao longo e ardente beijo. Um sorriso bailava no semblante feminino. Trazendo-a para mais perto, num abrao doce, Paul sussurrou em seu ouvido:
	Por que me deixou fazer isso?
	No pude evitar.
"Eu tambm no", Paul pensou, fechando os olhos.
Era injusto de sua parte. Era injusto para ambos. Mas ao abrir os olhos e ver um sorriso brilhante naquele rosto lindo, sua respirao ficou suspensa. Uma sensao incomparvel de perda, desespero e impotncia o dominou.
Em silncio, tomou-a pela mo, e juntos entraram no salo cheio de gente. Risadas se misturavam ao som de um piano. Por entre as muitas mesas, Paul se esgueirava, levando Cassy. Num canto privilegiado havia trs mesas vazias. Ele pendurou os casacos e a bolsa de Cassy e puxou a cadeira para que ela se sentasse. Flores e velas deixavam o ambiente ainda mais agradvel.
	E ento, gostou?
	Muito. Este lugar  incrvel. Seu amigo tambm.
	Esta mesa  reservada para os  convidados.
Quem senta aqui come o que ele mandar.  autoritrio at nisso.
Cassy batia os ps no cho, ao compasso da msica, deslumbrada com tudo. Nem percebeu que a garonete se aproximara e falava com Paul. Mas teve que prestar ateno no copo colorido que foi colocado  sua frente.
	O sr. Hoot j fez os pedidos para vocs. O drinque  uma das criaes dele. Espero que goste.  E, olhando para Paul:  Faa-nos um favor: assuma o piano enquanto o jantar no vem. Ningum aguenta mais esse moo.
Paul riu alto e disse:
	Por mim, tudo bem.  Mal a moa saiu, e Paul j estava de p, puxando Cassidy.  J que no posso escolher meu jantar, pelo menos escolherei a msica.
Cassy o seguiu at o piano. Ele a acomodou numa banqueta e, sem cerimnia, tocou uma verso de "Old Man River". Maravilhada com o talento musical de Paul, ela levou alguns minutos para perceber que todo o salo estava ouvindo em silncio. Para deleite geral, outras trs canes foram executadas. Mas o jantar os esperava e a audio terminou. Sob aplausos, Paul deixou o piano. S tinha olhos para Cassidy, que batia palmas.
Por alguns instantes ele conheceu a felicidade. Naquele segundo, sua vida pareceu perfeita.
Cassidy entrou em casa em estado de graa. Fora uma noite inesquecvel, e ela queria prolongar a sensao de felicidade. Pegou no colo um enorme gato amarelo que ronronava, enroscado em suas pernas.
 Ol, Sunshine. Vov Anna deu-lhe o jantar?
Brincandt) com o bichinho, Cassy foi at a cozinha, onde "vov Anna" tinha deixado um bilhete e uma fita em torno da geladeira. Uma das manias da me de Cassidy era a filosofia oriental, e segundo ela a casa precisava ser "purificada". Professora de Tai-chi-chuan, versada nos rituais chineses, vegetariana radical e tendo sua prpria viso das coisas, ela no poupava crticas aos filhos, e especialmente ao ex-ma-rido, Alvin, que aos sessenta anos se juntara a um grupo de motociclistas e deixara crescer os cabelos, usando sempre rabo-de-cavalo.
Rindo de si mesma e da famlia pouco convencional que tinha, Cass pensou que talvez no fosse m ideia agradar sua me e tentar a tal "purificao" da casa.
O som estridente da campainha a tirou desses devaneios. O relgio do microondas marcava dez horas, tarde demais para qualquer visita. Na ponta dos ps, ela atravessou a sala e pelo olho mgico verificou quem a procurava to fora de hora. Com o corao aos pulos, abriu a porta para Paul.
	Oi! Quer entrar?
Ele balanou a cabea, srio.
	Ns no combinamos quando nos encontraremos de novo.
	A primeira prova, claro! Deixe-me ver... quinta-feira no... Que tal sexta?    
	No. Falta muito tempo para sexta.
	Oh...
Cassy sentiu um arrepio. Por um lado era timo ouvi-lo dizer isso, mas por outro era impossvel aprontar antes disso a roupa.
	Tome caf da manh comigo na quarta-feira, e provarei a roupa na sexta.
	Caf da manh?
	S a convidei para o caf, no para passar a noite comigo. Por que est to surpreso? J almoamos, jantamos e tomamos ch juntos. S falta mesmo o desjejum.
	Que seja  assentiu Cassy com visvel alegria.
 Mas eu preparo tudo. Sete horas  muito cedo?
	Perfeito.
Antes de partir, Paul tomou-lhe o rosto nas mos e fitou-a por algum tempo, silenciosamente. Beijou-lhe a testa com suavidade e saiu.
Pela segunda vez naquela noite, Cassy trancou a porta e ficou pairando nas nuvens.
Anna apareceu na porta da cozinha, atrada pelo cheiro de bacon e ovos que se espalhava pelo ambiente. Tinha as mos na cintura e olhar de poucos amigos. A cabeleira grisalha presa numa longa trana e o longo vestido de algodo azul davam-lhe uma aparncia extica, reforada pelos brincos indianos de prata.
	O que est tentando fazer? Envenenar a si mesma ou enfumaar a casa toda?
	Digamos que estou tentando preparar um desjejum decente para um amigo  respondeu Cassy.
	Envenenando seu amigo com carne de animais mortos?
	Mame, no posso com-los vivos.
Anna estranhou a filha dizer aquilo. Afinal, sempre guardava para si os comentrios jocosos. Uma energia diferente emanava dela.
	Seria um amigo... do sexo masculino?
	Seria. Mame, por favor, tenho vrios amigos. E caf da manh no quer dizer que dormi com ele.
	Sei disso. No sou to preconceituosa como imagina.  E, mudando de assunto:  Deixei um bilhete para voc ontem.
	Pode purificar a casa quando quiser, desde que no seja agora.
	Obrigada. Farei isso, mas  melhor que no esteja por perto. Seu ceticismo atrapalha o fluxo energtico.
No tiveram tempo para dar prosseguimento  conversa. A campainha soou, anunciando que o convidado chegara. Atrapalhada entre a frigideira, o forno e a cafeteira, Cassidy tropeou em duas cadeiras e quem atendeu a porta foi Anna.
	Como vai, meu jovem? Sou Anna, me de Cassidy.
Paul estendeu-lhe a mo num gesto corts, porm no rosto estava estampada sua surpresa. E sua decepo.
	Paul Spencer, muito prazer. Devo concluir que  me de William tambm. Eu e seu filho trabalhamos juntos.
	Estranho, muito estranho... Em que dia o senhor nasceu?
	Dezessete de janeiro.
	17--- Vou verificar.  Com o olhar perdido, Anna dirigiu-se  cozinha.  Vai comer coisas mortas, sabia?
Cassidy acompanhou-a at a porta e assim que a viu desaparecer na rua, olhou para Paul.
	Desculpe-me, mame  um pouco excntrica. Alis, muito excntrica.
	O que ela quis dizer com comer coisas mortas?
	Esquea. Minha me  naturalista radical.
Paul caminhava pela cozinha, observando tudo com evidente ar de satisfao.
	Ovos, bacon, biscoitos caseiros... No acredito que tenha feito gelia de amora! Eu adoro!
Cass no conseguiu esconder seu orgulho com o elogio.
	Minha av me ensinou.
Eleja estava se servindo das guloseimas, com apetite de gluto. Entre uma garfada e outra, falou:
	Voc no costuma comer isso sempre, no ?
	Quase nunca.
	Foi o que imaginei. Ningum pode ter um corpo como o seu sem fazer sacrifcios.
	Como assim?  Corando at a raiz dos cabelos, Cassy no sabia onde pr as mos.
	Seu corpo  maravilhoso. No s o corpo, tudo em voc  lindo.
	Obrigada.
Ela no estava acostumada a ouvir elogios. Principalmente vindos de um homem como Paul. Natural que reagisse com timidez.
	William nunca fala muito da famlia. Sempre estranhei isso, e agora muito mais. Conhecendo voc e sua me, no entendo mesmo!
	Minha me  "esquisita" demais para os padres do meu irmo. Confesso que papai tambm no se encaixa na "normalidade". Vive para se divertir. Ah, e William no suportou o divrcio deles.
	Acho que vou gostar de seu pai.
	Com certeza. Mas minha me  o oposto disso. Para ela h coisas mais importantes que diverso.
	Acho que pode haver um meio termo.
	O que no o impediu de se sacrificar pelo trabalho.
	s vezes  preciso.
	Fale-me sobre Bettina.
Mesmo surpreso com o pedido, Paul relatou toda a histria e terminou dizendo:
	Chego a pensar que tudo, para ela, baseia-se na vaidade. Se no fosse seu orgulho ferido, nada disso estaria acontecendo. Mas agora  uma questo de honra casar comigo.
	Eu jamais conseguiria aguentar uma situao dessas.
	O que estamos vivendo  muito pior. Escute-me: se quiser que eu suma da sua vida, pea e o farei. S no quero magoar voc.
	No quero que voc suma.
	Que bom! Preciso da sua amizade.
	No somos amigos. Nenhum amigo me beijou como voc.
	Sei. Vamos parar com isso.
	No, no vamos.  E, para provar o que dizia, Cassidy uniu os lbios aos dele, num beijo apaixonado.
CAPITULO IV

Entre sedas, cetins, cristais reluzentes, flores e champanha circulavam os convidados do baile  fantasia de Bettina Lincoln. Pierrs, colombinas, zorros e outros personagens se misturavam no cenrio luxuoso criado pela imaginao e pela riqueza da anfitri.
Paul Spencer Barclay podia no ter o glamour de Tony Curtis, mas estava mais do que convincente nos trajes de cossaco. Viril e charmoso, parecia vindo das estepes russas. A habilidade de Cassidy em dosar criatividade e bom senso ficara provada nos detalhes, como as botas com aparncia gasta ou o sabre autntico que pendia do cinturo de couro envelhecido.
Com um sorriso no rosto, Paul saboreava o champanha quando Bettina fez sinal para que se juntasse a ela. Paul olhava ao redor, e convenceu-se de que Cassy estava certa ao afirmar que, no fundo, somos muito semelhantes  fantasia escolhida. No caso de Bettina, isso estava evidente. Vestida de princesa encantada, agia como se o mundo fosse seu conto de fadas. Bem, s uma varinha de condo faria o carpete branco ficar limpo depois daquela festa.
Bettina tomou-o pelo brao. Dirigindo-se a um senhor vestido de George Washington e a um casal com trajes pr-histricos, apresentou-o:
	Macie e Marc Gladsden, este  Paul Barclay Spencer, do pastifcio Barclay.
	Para Bettina, ele seria sempre Paul Barclay Spencer, do pastifcio Barclay. Se fosse apenas Paul Spencer no estaria ali, servindo como seu bichinho de estimao...
	Como vo?
O casal o via como um objeto, e como tal ele se portou. Enquanto Bettina fingia no perceber que Macie no tirava os olhos de Paul, ele se divertia com a situao. Conhecendo bem a alta sociedade, sabia que os Gladsden no faziam parte dela. Ouvira muitas histrias sobre as "festinhas de embalo" organizadas pelos dois.
No eram os nicos amigos de Bettina a fazer parte desse universo um tanto ou quanto ousado para os padres normais. Ela mesma tinha uma certa tendncia para se juntar ao lado escandaloso da sociedade. Mas Paul nunca imaginou que pudesse se misturar  gentalha. Essa espcie de atitude era inaceitvel para qualquer membro da famlia, mas ele no tinha o direito de interferir na vida de ningum. Mesmo que naquele momento estivesse muito incomodado.
Aquilo se estenderia por muito mais tempo. Bettina no parecia disposta a deix-lo. Tanto que, passados alguns minutos, tomou-o pelo brao e, com uma desculpa qualquer, despediu-se do casal.
De braos dados com Paul, ela fez questo de desfilar por toda a festa, sorrindo, chamando ateno dos convidados.
Mais alguns metros e Paul teria desistido, mas, para sua alegria, William Penno, seu fiel assessor, surgiu, elegante numa verso de Daniel Boone. Bettina abandonou-o para voltar ao amigos.
	Cuide bem de seu chefe, William. Confio em voc.
	Senhorita, ordene e eu farei  respondeu ele num tom de voz obsequioso.
Paul no suportava o jeito como o irmo de Cassy tratava Bettina. O servilismo dos gestos o incomodava tanto quanto o esnobismo. Com ele, era diferente. Exigira ser chamado pelo primeiro nome depois de oito meses de convivncia diria, mas nunca soube que isso no significara, para William, que tinham se tornado amigos.
Pobre rapaz, jamais entenderia que uma amizade verdadeira e leal podia ser muito mais valiosa que sua postura servil e subserviente... Portava-se como um subalterno, e isso nunca mudaria.
Como dois irmos podiam ser to diferentes? Cassy era espontnea, autntica...
Ele ponderava a respeito quando ouviu William dizer:
	Se me permite, devo confessar que est muito bem com essa roupa.
Sorrindo, com genuna gratido no olhar, Paul apertou a mo do funcionrio.
	Agradeo muito por ter me indicado sua irm.
Obrigado mesmo.
	Oh, por favor... Ns  que agradecemos pela oportunidade de servi-lo.
Paul olhou-o de alto a baixo e perguntou-lhe:
	Ela escolheu sua roupa?
	No. Veio de l, mas eu escolhi.
Era o que Paul imaginava. Na certa Cassidy teria optado por um pajem medieval. Ela tambm era da opinio que nada pior do que um homem servil e sem amor-prprio.
Bettina interrompeu o dilogo, chamando o noivo novamente, dessa vez para apresent-lo a um casal idoso e simptico. O marido confessou que viera quase por dever social, esperando se aborrecer, e para seu espanto estava se divertindo muito.
Submetendo-o a tais provaes, Bettina esperava v-lo prostrado a seus ps. Naquele momento, por exemplo, ela insistia em contar a ideia "brilhante" que acabara de ter.
Um baile  fantasia muito maior, patrocinado pela empresa!  exclamou, animada.  Ser uma grande festa. Convidaremos os clientes e poderemos atrair a ateno dos distribuidores nacionais. Faremos o lanamento oficial da campanha publicitria.
Essas palavras atingiram-no como torpedos. Conhecia a prima o suficiente para saber que ela tramava algo. E, pior, com os negcios da famlia. Cauteloso, argumentou:
	Uma festa desse porte custa muito caro.
	Temos a verba da publicidade. No seria um gasto intil. Sem mencionar o que podemos lucrar com o contato direto com clientes antigos, bancos, fornecedores... Voc me diz sempre isso.
Nesse ponto ela estava certa. Paul sempre reclamava que faltava,  empresa, um toque pessoal, e essa era uma excelente chance. Tinha que admitir que estava tentado pelo plano. S no concordava com o baile  fantasia. Por que no uma bela festa?
Mesmo animado, no demonstrou interesse imediato. Bettina no teria esse prazer. Foi ento que teve uma ideia:
	Se William nos auxiliar nisso, ser muito mais fcil.
Sim, Paul decidira concordar com o baile  fantasia. Mas por um nico motivo: Cassidy Penno. Que se danassem os motivos reais de Bettina.
	Eu?  indagou William, surpreso.
	Precisamos fornecer as fantasias para os convidados de fora. Ou espera que cruzem o pas com esse  tipo de traje na mala? E, para nossa sorte, sua famlia tem a melhor loja do gnero.
	Na verdade, o negcio  de minha irm...
	Um lugar timo!  interveio Paul, enfatizando seu interesse na loja e no em Cassy.  Fazem tudo, da criao ao acabamento. E possuem um estoque enorme. S no sei se dispem de uma lista de tamanhos e modelos oferecidos.
	Tenho certeza de que sim. Eu mesmo ajudei a informatizar a loja  disse William.
	Pronto. Achamos o homem para providenciar esse detalhe da festa!  E, tentando parecer casual:  Procure saber se sua irm pode falar conosco na segunda-feira de manh.
	Garanto que sim.
Bettina estava surpresa, mas entendeu como mais uma vitria sobre Paul e, exultante, lanou-lhe um sorriso magnnimo antes de dizer:
	Bem, fico contente ao constatar que desta vez no iremos brigar. Como v, tenho boas ideias tambm.
Paul assentiu, sorrindo, e percebeu que at aquele momento o velho casal ficara abandonado  prpria sorte. Bettina j abandonara a roda para alardear sua conquista. Ento coube a William fazer o papel de anfitrio. Ele era timo nisso, e Paul tinha pressa em comunicar a Cassy sobre seu plano.
J se despedira de todos quando William o segurou pelo brao e sussurrou-lhe ao ouvido:
	Ser que no devemos procurar uma loja maior?
	Nem pense nisso. Nenhuma loja grande nos atenderia to prontamente. Faltam dois meses para o ano-novo.
Mortificado, William gemeu e ousou dizer:
	Dois meses! Eu conheo minha irm e...
	Preciso dela.
"Preciso mesmo", pensou.
Sem perceber, Bettina lhe dera a chance ideal para continuar a ver Cassidy. O resto poderia ser resolvido.
Passava muito da meia-noite quando o telefone tocou. Cass, embora acordada, no atendeu imediatamente. Estava imaginando como fora a festa e se Paul formalizara o noivado com Bettina Lincoln. Tolice pensar assim, mas sentia que isso daria fim a seu idlio. Quando atendeu, no podia imaginar que ouviria justamente a voz dele.
	 voc mesmo?
	Sei que  tarde, mas o que tenho a dizer no pode esperar.
	Tudo bem.  Com o corao apertado, Cassy se preparou para ouvi-lo falar que no poderiam mais se ver.
	Preciso que me ajude, e muito.
Abrindo os olhos, sentindo o sangue latejar, ela disse a primeira coisa que lhe veio  mente:
	Sabe que farei qualquer coisa.
	Otimo. Eu contava com isso.
Agarrando o telefone com ambas as mos, Cassy mal controlava o entusiasmo.
	S me diga o que preciso fazer.
	No sei exatamente, mas  muita coisa. E teremos que nos ver sempre.
Confusa, Cassy ps-se de p. Pelo que conhecia de Paul, tudo era possvel.
	Espere! De que estamos falando?
	Do baile de ano-novo das empresas Barclay, um evento publicitrio que meus scios inventaram e com o qual concordei. Um baile  fantasia. Outros detalhes William poder fornecer amanh.
	Quer dizer... este ano-novo?
	Achei que deveria ser informada desse pequeno detalhe.
	Acho que no ser possvel.
	Esse problema  de Bettina. Meu nico problema  arrumar as fantasias dos convidados de fora.
	Agora ficou claro.  Cassy no sabia se ficava feliz ou preocupada com a atitude de Paul. Ento foi direta:  Vocs ficaram noivos hoje?
	Claro que no!
Livre do peso, e achando-se um pouco tola, ela tentou se desculpar:
	Achei que... Bem, William me disse que era esse o motivo do baile e... quer dizer...
	No h nenhum romance com Bettina. Nenhum de ns ama o outro. E uma questo de orgulho ferido para ela, s isso.
	 que eu pensei que ela o amasse e... Bem, ela j tem dinheiro e poder com a herana. Por que tanto empenho no casamento?
	Bettina quer ser um membro da famlia, uma Barclay legtima. E tambm restaurar seu amor-prprio ferido.
	E, ao obrigar voc a casar-se, conseguir tudo isso?
	Ela conseguiu me encurralar. No momento, tudo o que Bettina quer  me mostrar que venceu. Deseja que eu... hum... aceite meu destino.
Cassidy entendeu.
	Essa  a coisa mais triste que j ouvi.
	No, Cass. A coisa mais triste  amar algum que nunca ser seu.
Algumas palavras no precisam ser ditas. Cassy j sabia de quem Paul estava falando. E ele tinha razo.
	A melhor coisa a fazer agora  dormir.
	Certo. Boa noite.
	Boa noite, Paul.
	Vejo voc logo?
	Logo, logo.
Ao desligar o telefone, Cassy sentiu que o deixara mais calmo. Surpreendentemente, em poucos minutos dormia profundamente. Sentia-se em paz. Por algum tempo, teria Paul a seu lado, e seriam mais do que "bons amigos". E isso era alm do que podia almejar.
William conseguiu marcar a reunio com Cassidy, como prometera a Paul. Esquecido de que, antes de ser funcionrio da Barclay, era irmo de Cassy, continuava agindo com a prepotncia costumeira. Celular em punho, confirmava os nmeros e dirigia-se para Paul:
	Bettina calculou cerca de trezentos convidados.
Gladys ter os nomes at a tarde, assim que elaborarem a lista oficial. Em um dia ou dois teremos a listagem de idades, sexo, cor e tamanho aproximado de todos eles. Bendita seja a informtica!
Paul forou um sorriso.
	Vamos ao que interessa.  Virou-se para Cassidy.
 Voc acha que ter dificuldade em conseguir roupas para toda essa gente?
Consultando o computador, ela respondeu:
	No. Temos muita coisa em estoque e pouca procura para o reveillon. Se fizer a reserva agora, ter tudo o que deseja. Mas seria melhor inventar um tema para a festa, algo como "velho Oeste" ou "imprio Romano". Pela minha experincia, facilitaria a escolha das pessoas, evitaria rivalidades e tornaria mais fcil a decorao.
	Faz sentido. Mas onde arranjaramos local e cenrios em to pouco tempo?
	Um nico tema me d chance de negociar com todas as lojas.
William no quis ficar atrs da irm, e sugeriu:
	Temos a velha fbrica. E grande, tem estilo e est vazia. Quer lugar melhor?
O olhar de Paul buscou socorro no de Cassy. No fazia a menor ideia do que era razovel ou no. Mesmo assim, deu seu palpite:
	E velho, antigo mesmo. Est sujo e de bom s tem a solidez das paredes. Ah, e o tamanho.
	Parece muito bom. A srta. Bettina no precisa ser consultada?
	Antes quero ter algo concreto para mostrar. Alguma ideia de tema?
	Quem fundou o pastifcio Barclay, e quando?  indagou Cass.
	Meu bisav, em 1902. Por qu?
	Porque William tem fascinao pela saga da empresa, e muitos outros devem ter tambm. Estamos no fim do sculo. Que tal voltar ao comeo de tudo?
	Justamente agora que estamos mirando o futuro?
 bradou William.   um contra-senso. Nosso alvo  atingir propores nacionais. Essa estrutura familiar est ultrapassada.
	Will est certo  assentiu Paul.  A Barclay est a um passo da nova era.
	Quer coisa melhor do que voltar ao incio antes de olhar para o futuro? Dlias, 1902. O comeo de uma civilizao, a nossa. "Quem no teve passado, no ter futuro."  A voz de Cassidy era puro entusiasmo.
Paul estava inebriado com a ideia, com Cassidy, com tudo  sua volta. E o olhar denunciava seus sentimentos. Queria ser feliz e esquecer o resto.
As ideias pululavam. William queria fazer um histrico da empresa com fotos no saguo da fbrica. Cassidy sugeriu que Paul representasse o papel do patriarca Barclay. No auge da animao, ele no resistiu e, juntando os dedos, jogou um beijo na direo dela.
	Brilhante!  Cassidy foi rpida ao notar a reao de William. O olhar do irmo ficou frio, e a desaprovao era patente mesmo quando Paul abraou os dois, repetindo:  Os brilhantes irmos Penno!
O riso espontneo de Paul no impediu Cassidy de notar em seu irmo traos de preocupao. Algo o incomodava. Ela, porm, no se abalou. Tinha coisa mais sria em mente.
No foi preciso esperar muito para obter as respostas. Na noite seguinte, William apareceu de surpresa na casa de Cassidy, agitado e cruel, disparou suas farpas logo na entrada:
  E tudo culpa sua. Vai acabar com a minha carreira!
 Posso saber do que est falando?
 O plano era aproximar Bettina e Paul, no o contrrio.
Cass respirou fundo e contou at dez. Levou o irmo  sala ntima, esperando que ele se acomodasse. Acendeu o abajur, abriu um vinho do Porto e s depois de servi-lo, em copos de cristal belga, falou: 
 Agora, com calma, pode me dizer o que houve?
	E Paul. S pensa no baile. Esqueceu Bettina e, para se vingar, ela o atormenta com a decorao a cada minuto.
	E o que eu tenho a ver com isso?
	No se faa de sonsa, Cassidy Jane Penno. No sei como, mas parece que voc andou virando a cabea dele.
Sou paga para dar ideias. Se isso afeta a cabea
     de seu chefe, no  problema meu.
  Que tipo de ideias? A meus olhos est claro que ele... Bem, gosta de voc.
  E da? Para seu governo, no  o nico. Ou sua irm parece um monstro? Se veio para me dizer isso, ti,   pode ir para casa.
Por um longo momento, William ficou sem ao e encarou sua irm.
Sabe que no existe chance. Ele est comprometido com outra.
Atnita, Cass sentiu mais que censura naquele comentrio. Havia a preocupao legtima de irmo mais velho.
	Ainda no est.
	No acredito que voc pensa que pode competir com Bettina Lincoln! Ela  sofisticada, interessante, alta, loura... o tipo de mulher que faz um homem enlouquecer. E, mais que isso,  poderosa. Nunca vai deixar que voc ou qualquer outra mulher roube-lhe Paul.
Cassidy queria dizer que ele estava errado, e que Bettina ainda no possua Paul. Mas no ntimo concordava com William. Tinha quase certeza de que algo mais do que os negcios da famlia uniam os dois.
	Sou sua irm! Ser que isso no conta nada? Deixe um pouco de lado a "magnfica" Bettina e pense em mim. Ou em voc.
	Est certo. No posso ficar amarrado desse jeito a Paul.
	Exato. Pense neles como uma fonte de rendimentos para ns, e temporrio.  E, com ar inocente:  De mais a mais, foi por sua causa que eu o atendi.
	S lhe peo uma coisa: no podemos deixar Bettina  margem dos acontecimentos. Ela precisa ser a estrela dessa festa. Faa com que isso acontea. Sei que vai armar uma pequena pea de teatro para contar a histria da empresa, e que Paul ser o velho Barclay. Pois use a criatividade para colocar Bettina como a mulher que fez o grande homem. D um jeito. Escreva, crie, dinheiro no  problema. No saio daqui sem um texto para Bettina ler amanh. Chame seus amigos de teatro, faa o que quiser. Mas faa.
Dois telefonemas e Tony e um amigo redator estavam l, com pizzas e disposio. Como se fosse um desafio para seu talento e carter, Cassidy produziu naquela noite um texto completo, com tudo: marcao, iluminao, trilha sonora. Como figura central, a esposa fiel e incansvel, abnegada e brilhante: o papel de Bettina,
Quando terminou, soube que fizera aquilo por Paul. Por causa do amor cada vez mais intenso que nutria por aquele homem. Se isso o ajudasse em algo, teria valido a pena.

CAPITULO V

	Achei as fotos!  disse William, tirando da pasta um velho lbum.
Cassidy, Tony e os outros trs rapazes do curso de teatro levantaram os olhos para ver do que se tratava.
	H uma foto da casa do bisav de Paul, em que ele aparece com a esposa.
Cassidy juntou as mos, agradecida.
	Graas aos cus!
	No vo acreditar, mas o velho Barclay fazia propaganda do po j nos anos vinte. Aqui, eles esto inaugurando a terceira loja.
Aquele era o material de que Cassidy precisava para a ambientao do baile e, especialmente, para sua pequena pea de teatro sobre o patriarca Barclay. Entusiasmada, revirava o material que lhe daria subsdios para o trabalho.
Estavam empenhadssimos na produo da pea. Havia quatro dias que no faziam outra coisa.
Paul chegou nesse instante, furioso. Acabara de falar com algum no celular.
	Essa foi a coisa mais estpida que j ouvi em toda a minha vida!  Olhando para todos, explodiu:
 Algum precisa tomar, conta desta loja. H clientes esperando!
Tony saiu correndo antes que a fria de Paul desabasse nele. Os outros trs jovens seguiram-no.
	E ento? Bettina gostou da pea?  indagou William.
O corao de Cassidy ficou apertado. Trabalhara muito naquele roteiro. Conseguira contar a histria do patriarca Barclay, colocando Bettina no papel da bisav de Paul. E, se fosse preciso reescrever algo, estariam perdidos. No haveria tempo.
	Bettina se recusou a fazer a pea. Alegou que isso arruinaria sua imagem  vociferou Paul.
	Mas como?  o papel principal! Sua bisav foi a responsvel pelo desenvolvimento da empresa!
Paul levantou o dedo em riste em direo a William, irritado.
	Exato! Ela morreu aos noventa e quatro anos, ativa e lcida. Trabalhou para que tivssemos uma fbrica, ao invs de muitas padarias. Enfim, construiu tudo o que temos.
William balanou a cabea, desalentado.
	No entendo. A srta. Lincoln devia estar orgulhosa pr representar esse papel.
Mos na cintura, Paul disse em tom sarcstico:
	A srta. Lincoln no tem muita coisa na cabea. O que a incomodou foi a parte em que  uma senhora idosa. Usando as palavras dela, uma velha.
	S no final. Comeamos com a personagem aos vinte anos, e recm-casada!  argumentou Cass.
	Isso no faz diferena!  Paul continuava inconformado.  Bettina teme que a maquiagem estrague sua pele, e no quer parecer velha. Ponto final.
Cassidy parou por alguns minutos, para pensar naquilo tudo. Nenhuma mulher do mundo seria vaidosa a esse ponto. Havia algum outro motivo. William mostrava-se to estarrecido quanto ela, mas, como sempre, tinha um ponto de vista conciliador:
	Talvez a srta. Lincoln no tenha a dimenso exata do papel. Enquanto voc sai depois da segunda cena, ela continua at o fim da pea.
	Esquea. Bettina se recusa e pronto! Essa mulher me tira a vontade de viver!  confessou Paul.
	E agora? O que vamos fazer?  William perguntou.
Era a deixa que Paul esperava. Um brilho maquiavlico surgiu em seu olhar quando fixou-se em Cassy.
	Vamos achar algum para substituir Bettina. E sei exatamente quem.
William Penno rebelou-se instantaneamente.
	Voc no est sugerindo que...
	Oh, eu no ousaria  argumentou Cassy, entendendo que o papel sobraria para ela.
O charme e a postura de Paul Spencer Barclay eram imbatveis nos negcios, diziam todos. Valendo-se desse talento, ele se aproximou de Cassidy, tomou sua mo e foi direto ao dizer:
	Sei que estou pedindo demais da nossa amizade, mas preciso de voc. Saberei recompensar seu trabalho, prometo.
	No  uma questo de dinheiro.
	Tenho certeza de que no.  Sua voz tornou-se suave.  Mas no tenho outro modo de expressar minha gratido por tudo o que tem feito, por seu apoio e generosidade...  E beijou-lhe a mo.
Cassidy no resistiu ao gesto galante, capitulando.
	Oh, no! Por favor!  William estava inconformado.  Pense no que est fazendo!
Paul fuzilou-o com o olhar. Cansara-se de ouvir objees e conselhos do assessor.
	Que sugere, ento?
	Pense na srta. Lincoln...
	A srta. Lincoln sabe perfeitamente que algum ter que fazer o papel que ela recusou. Agora diga  sua irm para aceitar minha proposta. J!
	Eu?
	Voc no  meu assessor? Pois ento, resolva esse problema.
O poder que Paul se recusava a usar nas relaes pessoais estava sendo til, finalmente. Agir dessa forma com William Penno era uma forma de faz-lo perceber quanto podia ser desagradvel a arrogncia alheia.
No fundo, Cass estava saboreando esse momento. No deixou de ter uma certa graa ver o prepotente William se render.
	Bem, apesar de tudo, pensando melhor... Ns no podemos abandonar Paul agora.
Cassidy se perguntou at que ponto era importante para Paul t-la a seu lado. Mas a pergunta era irrelevante. Seu corao sabia o que importava de verdade. Voltando o rosto para ele, respondeu com sinceridade:
	Claro que terei prazer em fazer a pea, se  o que quer.
	Obrigado. Muito obrigado.
A essa altura, William j recuperara o autocontrole e, infelizmente, tambm a prepotncia. Queria que Bet-tina brilhasse, no Cass. Portanto, no permitiria que sua irm se valesse dos mesmos trunfos destinados  srta. Lincoln.
	Precisamos fazer modificaes no texto, j que Cassidy ser a matriarca, e no Bettina.
	Ningum pe a mo no que est escrito.  Paul estava disposto a tudo para ser obedecido. Seu olhar no deixava dvidas sobre isso.
Engolindo em seco, William guardou para si as objees. Cassy retomou o assunto do lbum de fotografias:
	Agora vamos ver que fotos podemos usar.
A pesquisa foi produtiva. O bisav de Paul fora um dos primeiros, em Dlias, a fazer uso constante da fotografia como forma de registrar flagrantes cotidianos, quando a maioria das pessoas apenas posava para a mquina.
Em menos de uma hora Cassidy j sabia o que precisava adquirir nos antiqurios da cidade, e saiu em busca das primeiras peas. Paul deu-lhe seu carto de crdito e o celular.
A tarde voou. Quando ela finalmente ps os ps na loja, tinha a sensao agradvel de haver conseguido avanar lguas no trabalho. Excitadssima, tinha pronta, na cabea, a decorao da festa, e em detalhes.
Paul precisava ser informado de seu projeto. As ideias fervilhavam em seu crebro e a loja j estava deserta. Tony saiu correndo ao v-la chegar, atrasado para a aula.
Como o telefone de Paul ficara com ela, no sabia onde procur-lo. Nesse momento, ouviu a porta bater.
	Oh, Paul! Voc leu meu pensamento. Tenho de contar minha ideia...
	Que bom! Falaremos durante o jantar.
Como uma criana, Cass no se conteve e disparou a falar:
	Sabe a foto de sua bisav na cozinha? E o jeito do restaurante de Hoot? Pense! Podemos conseguir um ambiente mgico se reproduzirmos a cozinha dela em todo o salo! E  simples: basta usar as toalhas certas, alguns objetos e pronto. Teremos a mesma atmosfera.
	Genial!
Seguindo-a pela loja, Paul ouvia, atento, os detalhes que Cassidy dava enquanto apagava luzes e ia fechando a loja. S quando estava na rua, com o vento frio despenteando seus cabelos, Cass parou de tagarelar. E isso porque Paul segurava-lhe o queixo.
	O que foi?
	Isto.  Ele a beijou.
Era o primeiro beijo depois do baile  fantasia. Ambos ansiavam por esse momento, mas nenhum tomara a iniciativa. Tinham medo. No sabiam bem do qu, mas tinham. Foi Cassidy quem definiu as coisas. Assim que seus lbios se separaram, ela disse:
	No a pea em casamento at o ano-novo. Por favor, nos d esse tempo.
	Certo. Prometo.
Abraados, sentindo o vento gelado tocando seus corpos, estavam quase felizes. Ao menos poderiam ficar juntos at janeiro.
O caos imperava quando comearam a mexer na fbrica. Sujeira e entulho misturavam-se aos problemas tcnicos para a produo da pea.
Tudo parecia se complicar, e William no tornava mais fcil a tarefa, implicando com Cassidy e seus mtodos.
Tony e seus colegas de faculdade estavam encarregados da faxina. Esse foi um motivo a mais para o desentendimento dos irmos Penno.
Paul chegara  fbrica justamente num desses momentos. Fora at l para ensaiar e escolher os atores coadjuvantes, todos estudantes da escola de arte dramtica.
Essa fora uma das razes pelas quais Cassidy pedira que Tony levasse seus colegas de faculdade. Mas William no entendia esse raciocnio e brigava por colocar, na limpeza, uma empresa especializada. Paul interveio em favor de Cass. Queria que todos entendessem que faziam parte de um projeto comum, e que juntos deveriam alcanar o resultado desejado.
Cassidy, com um assobio estridente, conseguiu a ateno de todos. Com voz firme, ela passou a exercer o comando.
	Primeiro eu gostaria de agradecer a todos que esto dispostos a trabalhar conosco. Quanto antes a limpeza acabar, mais cedo iremos para casa.  E, olhando para Paul, anunciou:  Acho que o sr. Barclay tem algo a nos dizer.
	Em primeiro lugar, gostaria de lhes pedir que anotem seus telefones para contato, horrios de trabalho desejados e tarefas que tm facilidade em desempenhar. Isso nos garantir um aproveitamento me lhor das qualidades de todos  disse Paul.
Em pouco mais de vinte minutos j haviam chegado a um consenso sobre o trabalho da equipe, o salrio e os contratos temporrios.
	Todos sabem que a festa est centrada num nico ponto: a pequena pea que estamos produzindo e que dar sentido ao evento. J foram distribudas cpias para todos. Eu farei Theo Barclay, e a srta. Penno...
	Cassidy  corrigiu ela.
	Obrigado. Cassidy concordou em representar a esposa de Theo, minha bisav. Inteligente e criativa, a srta. Penno  a responsvel por tudo aqui. O que ela disser ou fizer tem meu aval. O poder  dela.
Tony e William reagiram s palavras de Paul com o mesmo sentimento de insatisfao. Porm, foram os nicos a se sentir assim.
A palavra voltou para Cassidy, que comeou a narrar suas escolhas para o elenco, o que inclua muitos membros da famlia Barclay. Faltava um rapaz para representar Theo quando moo, e William sugeriu que procurassem entre os filhos do pessoal da diretoria da empresa.
	Mais uma vez os irmos Penno nos socorrem com suas ideias geniais. Obrigado, Will. Pode providenciar isso?
William encheu-se de orgulho.
	Claro.
	Seria bom contar com uma ou duas meninas tambm  lembrou Cassidy.
	Verei isso  prometeu William.
Tudo encaminhado, a reunio foi encerrada. Paul, Cassy e William se isolaram para a leitura do script. Cass explicou o motivo pelo qual discutia com William quando Paul aparecera na fbrica.
	Meu irmo se esquece de que estamos organizando um baile, no somente uma pea de teatro. No podemos deixar de ter claro que essa pea  s um detalhe dentro da festa. As pessoas no estaro aqui para assistir a uma representao, mas sim para danar, beber e se divertir na passagem do ano. Portanto, no tem cabimento colocar um palco enorme no meio do salo.
Sem falar no detalhe de que Bettina no ficaria muito feliz com tamanho destaque para algo que no lhe dizia respeito, pensou Paul. E, para a orquestra que ela escolhera, seria necessrio muito espao, tornando invivel a colocao de outro palco s para a pea.
A ideia de Cassy foi aceita. Fariam um pequeno cenrio, no lado oposto ao da orquestra. Ele passaria despercebido em meio  decorao, e usariam o salo como cenrio durante grande parte do tempo.
Bettina sugerira que cortinas brancas de seda forrassem todo o interior, para desespero de Paul. Irnico, ele observou que dificilmente isso se pareceria com uma cozinha rstica do comeo do sculo.
William, por sua vez, se ps a defender com ferocidade o ponto de vista de Bettina, mas Cassidy concordou com Paul. Seria mais apropriado usar cortinas listradas e coloridas. Mas William insistiu no assunto, o que o obrigou a ouvir palavras speras.
	Que uma coisa fique clara: sou obrigado a casar com Bettina, no a concordar com suas idiotices.
Paul surpreendeu o assessor, que, chocado, no hesitou em culpar a irm, fulminando-a com o olhar. Cassidy sentiu-se desconfortvel e injustamente acusada. Afinal, se Paul detestava Bettina, ela no tinha nada a ver com isso.
Tentando desanuviar o ambiente, Cass sugeriu que repassassem as falas com Will, para que ele pudesse julgar o desempenho de ambos, e do narrador, Andy, um ator profissional.
O comeo foi realmente hilrio. As falas no se encaixavam com a ao, e as mos de Paul se moviam como num filme mudo. Ensaiaram a cena em que o casal Barclay decide largar os empregos para abrir seu prprio negcio.
As falas podiam no convencer muito, mas a intimidade demonstrada pelo casal era muito convincente. Real demais para o gosto de William.
A cena terminava com o casal abraado, olhando com esperana o futuro. E foi esse abrao que mais incomodou o jovem Penno. Tony agiu rpido, distraindo os demais para que no vissem o que estava acontecendo entre os protagonistas.
Paul no conseguia disfarar seu interesse por Cass. Queria lev-la para um lanche, a fim de ficar a ss com ela. Disse-lhe ao ouvido que sairia primeiro e que voltaria para busc-la em alguns minutos.
Tudo isso por causa de William, sempre perto, vigiando. Para espanto de Cassidy, que nunca se colocara na posio de viver um romance clandestino, a censura dos olhos do irmo era dolorosa. Ele se preocupou at mesmo em certificar-se de que Cass iria sozinha, e direto, para casa.
Essas e outras presses foram fortes o bastante para que ela sentisse necessidade de redefinir, ou repensar, a relao com Paul. Mas, com William em seu encalo, isso se tornou impraticvel. O irmo levou-a para casa, e, a pretexto de tomar um caf, demorou tempo suficiente para ter certeza de que nada aconteceria.
Agoniada, Cass viu as horas passando sem que Paul desse notcias ou atendesse o celular. s dez horas da noite ele apareceu, com aparncia de quem sara do chuveiro, cabelos molhados e revoltos. Vestindo uma cala jeans larga, tnis e um bluso esportivo, parecia mais jovem, no fosse o cenho cerrado.
Avanando em direo ao sof, foi logo dizendo:
	Temos de conversar.  Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Cass foi bombardeada pelas palavras:
 Sinto muito, mas no sou hipcrita o bastante para fingir que no estou louco por voc. Ainda sou um homem livre, e enquanto isso no mudar quero ficar a seu lado.
Mesmo atordoada com a declarao, Cass teve presena de esprito para contra-argumentar:
	Ser isso possvel? E Bettina? J pensou que talvez ela se incomode?
Enterrando a cabea nas mos, Paul respondeu com desalento:
	No sei. Realmente, no me importo mais.
Sem saber como agir ou o q\ie dizer, ela simples mente fez a pergunta-chave:
	Voc tem mesmo de se casar com ela?
Respirando fundo, Paul ficou em silncio por alguns instantes.
	Tenho.
	Oh, entendo...
A decepo foi maior do que ela esperara. Muito maior. Desviou o olhar, para esconder as lgrimas. E mesmo as palavras seguintes dele no faziam sentido.
	No vejo outra sada. Bettina est obcecada, no mudar de ideia. Queria t-la conhecido antes, Cass, muito antes.
	Antes de ter um caso com ela, quer dizer.  E, recuperando a calma:  No vejo alternativa seno continuar assim, escondidos, no pouco tempo que ainda nos resta.
	No consigo v-la feliz com isso.
	Por causa de William. Ele no compreende e me faz sentir culpada.
	Se estou causando embarao, vergonha, diga-me e...
	Claro que no! No h nada de que eu me envergonhe. Nada!
As mos de Paul tocaram-lhe com delicadeza o rosto, deslizando numa carcia apaixonada. Seus olhos a miravam, embevecidos.
	E aonde isso vai nos levar?
	Onde j estamos.
Beijando-a de leve muitas e muitas vezes, Paul pediu perdo, emocionado.
	No pude conter meus sentimentos. No me controlei, Cass.
	No me pea perdo.
O beijo que ele lhe deu na mo percorreu-a como corrente eltrica. Fechando os olhos, entregou-se, aninhando-se nos braos masculinos. Depois, inverteram as posies, e Cassy o aconchegou no regao.
Olhando para o menino que ele parecia, ela o acariciou. Paul enterrou o rosto em seus seios. Aos poucos, foi levando as mos at eles, sentindo-os. Eram to desejveis que ele no se conteve. Excitado, deslizou a outra mo para a coxa rolia.
A reao de Cassidy foi cerrar os olhos e deixar que aquela sensao deliciosa reverberasse em cada centmetro de seu corpo. Paralisada, temendo interromper a magia, ficou imvel. Uma onda de desejo violento a dominou, enfraquecendo seus sentidos, aquecendo-a como nunca.
Mas ele se deteve de repente. Ps-se de p e, controlado, disse:
Melhor eu ir para casa.
Dadas as circunstncias, Cassy assentiu. Se continuassem ali, no poderia responder pelo que aconteceria. Ao acompanh-lo at a porta, percebeu quanto o desejava, e sofreu por v-lo partir. Suas pernas ainda estavam trmulas. Fechou os olhos. Seu corao e seu corpo ainda o sentiam intensamente.
Mesmo na cama, tempos depois, seu ser vibrava com a lembrana de Paul.

CAPITULO VI

Esbaforida, Cassidy entrou na fbrica. Todos respiraram aliviados.  Especialmente Paul, que no disfarou sua alegria.
	Graas aos cus! Estava preocupado. Voc no costuma se atrasar.
	Deixou todo mundo esperando  repreendeu William, incomodado com o gesto afetuoso de Paul.
Afastando-se do abrao, Cassidy se desculpou pelo atraso, constrangida.
	Desculpem, tive uma reunio com o fornecedor de perucas, e demorou mais tempo do eu supunha. Depois, houve um acidente na avenida central.
	Voc deveria saber disso antes de escolher esse caminho  rebateu William, irritado.
Paul respondeu com rapidez, intrigado com tanta hostilidade:
O que o incomoda, Penno? Cuide de sua vida.
Cassidy interveio para serenar os nimos. Segurando Paul pelo ombro, sugeriu:
	Estamos perdendo um tempo precioso. Ao trabalho!
A hostilidade de Paul arrefeceu, e William no disse nada. Limitou-se a olhar para ambos com indignao. Cassidy j perdera o sono tentando achar um modo de tranquilizar o irmo e faz-lo aceitar sua relao com Paul. Mas nem ela mesma estava convencida de que agia corretamente.
A verdade era que vinha se encontrando com um homem que se casaria com outra, em breve. J se cons-cientizara de que o melhor seria romper, mas no tinha fora para levar adiante essa resoluo. Enquanto houvesse chance, continuaria ao lado do homem que amava. E William sofreria por achar que sua irmzinha era amante do chefe.
Ao imaginar o futuro sem Paul, Cassy estremecia. Aos poucos, preparava-se para ocupar o lugar que lhe caberia quando ele se casasse. No fundo, continuaria a ser a outra, pois no enxergava a vida sem aquele homem. Nesses momentos, dava graas por ter coisas mais urgentes com que se preocupar.
O que deveria ser apenas uma pequena apresentao transformara-se numa produo teatral completa. E o baile assumia propores maiores a cada reunio.
Ensaiaram e ensaiaram. William fizera um timo trabalho com os cenrios, conseguindo um meio termo entre o projeto inicial e a parcimnia de Cassidy. Tinham um iluminador competente, e os resultados eram gratificantes.
No intervalo de mais um ensaio, Tony chamou Cassidy para discutir alguns adereos. Era tarde e a conversa parecia interminvel. Paul estava faminto e nada disposto a esperar pela companhia de Cass. Ento, chamou-a. A reao de Tony foi violenta e imediata.
	Se o seu dinheiro pode comprar todos, isso no se aplica a mim. Pode nos dar licena, "patro"?
	Vamos acabar a conversa mais tarde, Tony? Por favor...
	Mas Cass...
	Mais tarde. Voc ouviu a senhorita  reforou Paul, vitorioso. E, virando-se para ela:  O que voc tem?
	Dor de cabea, mais nada.
	Cass sempre tem isso quando no come  interveio Tony.   comum acontecer. Basta uma ma e o mal-estar passa.
Era verdade, reconheceu ela. Esquecera de almoar. Somente um caf e meia torrada, que ingerira depois que acordara, mantinham-na em p. Assentiu, com a tmpora latejando.
	Vamos comer. Eu a levarei  resolveu Paul.
	No mximo um iogurte. S uma aspirina e um quarto escuro resolvem  provocou Tony.
	Providenciarei tudo isso. Vamos, querida.
Cassidy estava plida, e quase desfalecida, quando William interveio:
	Se minha irm est doente, eu a levarei para casa.  O tom autoritrio impressionou.
Esgotada, estourando de dor de cabea, Cassidy no teve foras para discutir e, relutante, cedeu s presses de William. Dividida, falou:
	Acho que no estou disposta. No vou sair com ningum.
	 claro que no, mas precisa de quem cuide de voc. Minha inteno  fazer isso.  Paul ps-se na frente de William, interceptando-lhe a passagem.
Foi o bastante para deflagrar a onda de revolta que Will vinha alimentando h algum tempo. Esquecido de quem era Paul, insurgiu-se contra ele.
	Sinto muito, mas isso j foi longe demais. No posso tolerar!  vociferou.
	Tolerar? Somos adultos, Will. No creio que haja algo para ser "tolerado", por voc ou por quem quer que seja.
	Cassidy  minha irm.
	E  adulta. Esta no  a hora, nem o lugar para discutir. Alis, no h nada aqui que lhe diga respeito. 
William mudou o tom da conversa. A ira deu lugar ao apelo comovido, e foi assim que se dirigiu ao chefe:
	Por favor, pense no que est fazendo. Cass no merece ser enganada. Pare de se comportar como se ela significasse algo para voc.
	E significa muito. Muito! Talvez no valha nada para o irmo, mas, para mim, ela  importantssima.
William fez de conta que no ouvira a provocao.
	J pensou no que Bettina vai pensar se...
	Bettina no tem nada a ver com isso!
Cassidy, dividida e magoada, sentia as lgrimas ensopando o rosto delicado. Quando Paul a puxou para si, afastando-a de William, seu corao doeu.
	Pense no que est em jogo  disse Will. E, cnico, completou:  Ela no vale tanto, Paul.
	No sei se voc  um canalha, William, ou s mais um imbecil, como tantos por a. 
Atnita, Cass ainda no captara a extenso do que seu irmo acabara de dizer. Sentia o desdm dele como um punhal cravado em seu peito. Uma pequena parte dela dava razo a William, mas isso no diminua em nada seu sofrimento. S uma coisa no mundo poderia lhe oferecer conforto naquele instante: o abrao de Paul.
Gemendo, permitiu que ele a tomasse nos braos e a levasse para longe dali. Foi um blsamo sentir o vento frio no rosto, ao sair da. fbrica. Ainda zonza, respondia s perguntas de Paul com monosslabos. S se recordaria, depois, de ouvi-lo dizer que algum precisava dar uma lio a William.
Ao sentir-se de volta ao lar, acomodada no sof da sala, recuperou um pouco a energia habitual. Paul se desdobrou em cuidados. Aspirina, sopa de legumes, bolachas e um pedao de ma ajudaram a convalescena.
Enternecida, assistiu ao vaivm dele pela cozinha, atarefado com o preparo da refeio. Ch e bolinhos tambm foram servidos, com tanta desenvoltura que Cass se surpreendeu. Solcito, ajoelhou-se ao seu lado.
	Melhorou, querida?
	Muito.
	Ento fique quietinha enquanto lavo os pratos. No saia da.
	No seja tolo. J estou boa.
	E espero que continue assim.
Fechando os olhos, Cassy no pde evitar que um sorriso bailasse em seus lbios. No se lembrava da ltima vez em que algum cuidara dela. Estava quase feliz, apesar de tudo. Os rudos na cozinha, a televiso ligada, o gato que se aninhara em seu colo... Essas pequenas coisas davam-lhe uma sensao inebriante e nica.
Cochilou alguns minutos, e quando Paul a acordou, para se despedir, as palavras saram naturalmente. Segurando-o pela manga, pediu:
	Por favor, fique comigo.
	S um pouquinho...
Depois disso, ela adormeceu profundamente. Vagamente se lembrou de ter sido carregada para a cama. Mas, sabendo que Paul estava ali, pde descansar tranquila. O homem que amava tomava conta de seu sono, e tudo daria certo...
Cassidy acordou com o nascer do sol. Teria continuado a dormir, mas o contato da mo quente e pesada sobre sua pele nua a despertou. Ainda sonolenta, aos poucos foi se dando conta do que estava acontecendo. O brao que envolvia sua cintura e o corpo musculoso que amparava o seu eram masculinos. De Paul.
Um sorriso veio-lhe aos lbios ao se recordar da noite anterior. Lnguida, respondeu pouco a pouco ao contato sensual.
Adormecido, ele nem notou que a enlaava. O brao escorregou pelo corpo feminino e fez com que Cassidy perdesse o flego ao iniciar carinhos muito atrevidos... Sentir o toque daqueles dedos provocou-lhe prazer e medo.
Tensa, sem saber o que fazer, ela se deixou levar pelo instinto. S ento percebeu que Paul no estava mais dormindo. Virou-a para si, escorregou as mos pelo corpo bem feito e beijou-a na testa.
	Bom dia! Como se sente?
	Melhor, impossvel.
	Preciso me certificar disso.  E, maroto, acariciou todo o corpo de Cassidy.  Voc acorda linda!
	Digo o mesmo...
	Dessa vez vou acreditar.  Paul ergueu-se um pouco da cama e, apoiado nos cotovelos, fitou-a, embevecido. Nada, seno os lenis, cobria a nudez de seus corpos. Por isso, quando Paul a puxou, Cassidy sentiu-o por completo. A boca de Paul procurava, sedenta, pela dela, e num frmito os lbios se juntaram. Cass queimava de desejo.
Nada parecia saci-la. Ao arquear as costas, os seios exuberantes uniram-se ao peito de Paul, num apelo mudo. A sensao que a dominava era de urgncia. Urgncia de tocar e ser tocada por Paul, juntar seu corpo ao dele, buscando um contato cada vez maior, mais intenso. Cassy queria mais e mais, e tinha a impresso de que nunca alcanaria o que buscava.
Por um segundo hesitou, mas s por uma frao de segundo, ao notar seu corpo ardendo pelo que estava por vir. Os lbios de Paul deslizaram, suaves, at a orelha feminina, mordiscando-a. As carcias continuaram pelo pescoo e desceram pelo colo, arrancando arrepios de prazer.
Fechando os olhos, Cassidy submergiu na onda de desejo que a envolvia.
Por isso, ao abrir as plpebras e olhar o despertador, s conseguiu dizer:
	Cus!!!
	Eu diria que  o paraso...
	Paul!
	Hum?
	So quase nove horas da manh!
	O qu?
	Eu falei que...
Desperto dos devaneios, Paul parecia ter sado de uma ducha fria.
	Nove? Droga! Eu tinha de estar no escritrio s oito e meia.
	Minha loja abre s dez. Ou abria...
Ela riu, e o fez rir junto. Linda e desejvel, como nenhuma outra mulher jamais seria.
	Adoro quando voc ri. Quero desesperadamente fazer amor com voc.
	Eu sei, mas...
	Acho melhor avisar a fbrica que vou demorar. E me faa um favor, no levante at que eu tenha sado.  Beijando-lhe a testa, ele s~e levantou enrolado no cobertor.
	Por qu?
	Para que eu possa me lembrar de voc o dia todo, deitada entre lenis. E, sinceramente, no sei se resistiria a sua pele macia...
Cass tremeu da cabea aos ps. Encolheu-se mais debaixo dos lenis.
	Tudo bem.
Ele a beijou na boca longamente e depois, com os sapatos nas mos, saiu do quarto. Minutos depois, Cass ouviu a porta da rua bater, e um enorme vazio a tomou de assalto. Pela primeira vez passara uma noite ao lado de um homem. E por ironia, ainda que ele fosse o homem de sua vida, continuava virgem.
Suspirou, sem saber se de alvio ou desapontamento. Ou ambos.
Cassidy no teria aceito o convite do pai, para almoar, se soubesse que William tambm iria. Havia dias que procurava evitar-lhe a companhia.
O semblante carregado do irmo evidenciava qual a opinio dele a seu respeito. No que fizesse alguma diferena para Cass, mas preferia evitar aborrecimentos para ambos.
O pai morava num apartamento dplex, que, para desespero de William, estava em pssimo estado. Chegando l, Cassidy logo adivinhou que fora dele a ideia daquela reunio familiar. Mal cumprimentara o pai, pde ver, da janela da sala, o belo carro de William estacionando.
Pegou a bolsa e, irritada, dirigiu-se ao velho Penno:
	Ento  isso, hein? Saiba que estou indo embora.
Alvin Penno olhou-a e, com seu jeito nico, argumentou:
	Deixe disso, filha.  E, virando os hambrgueres na chapa do fogo, disse:  Reconheo que William  um pouco rgido, mas  seu irmo e s quer seu bem.
Cassidy balanou a cabea com veemncia.
	Sinceramente, no dou a mnima para o que ele tem a me dizer.
	Querida, Will est firmemente decidido. Alm disso, como vai manobrar o seu carro com o dele parado atrs?
A porta da cozinha se abriu, e William entrou, com o ar arrogante de sempre.
	Bem  dirigiu-se para Cassidy , finalmente estamos frente a frente. E voc vai ter que me ouvir.
	Engano seu. Voc no tem nada a ver com minha vida.
A guerra estava declarada. William despejou sobre Cassy toda sorte de argumentos contra Paul e, para culminar, responsabilizou-a caso fosse demitido da Barclay.
Cass no estava disposta a ceder. Se sua relao com Paul o incomodava tanto, certamente o motivo nada tinha a ver com amor fraterno.
A hostilidade com que Will a vinha tratando desde o incio assumiu contornos violentos.
	Ele  praticamente noivo!
	Praticamente. Voc mesmo est dizendo.
	Todos sabem que Paul tem de se casar com Bettina.
	E da? Enquanto isso, posso ser amiga dele.
	Amiga no  o termo exato. Chego a pensar que Paul a ama!
Entre tanta coisa desagradvel, finalmente uma frase enchia Cass de alegria.
	Mesmo que seja verdade, nada impede que eles se casem.
	Exatamente.
	Ento qual  a sua aflio? Evidente que no tem nada a ver com a minha tristeza.  Melanclica e amarga, ironizou:  Relaxe, irmzinho. Seu plano vai dar certo. Paul e Bettina ficaro juntos.  Viu que a palidez tomou conta do rosto de William. Era como se ele tivesse visto um fantasma. A expresso aterrorizada despertou em Cassidy uma suspeita terrvel:  Cus! Voc est atolado nisso at o pescoo,
no est? Voc e Bettina... juntos!!!
A culpa de William estava expressa nas mos que se contorciam, no canto da boca trmula, nos olhos. Tudo nele o denunciava. Vacilante, mal conseguiu dizer:
	No... no sei do que est falando... Tudo o que fiz foi... para o bem de todos.
Cassidy ficou imvel, estarrecida, como se no o conhecesse. A figura pattica  sua frente no podia ser seu irmo, mas era. Apavorado, covarde,  espera da catstrofe iminente, William sempre vivera  assim, acuado pela prpria existncia.
J no era raiva, mas um profundo pesar que a dominava. Soou estranho ouvir a prpria voz, muito mais fria que o habitual, dizer:
	Se o que o preocupa  perder o emprego por minha causa, sossegue, no importa quanto esteja metido nas armaes de Bettina.
William Penno, que havia poucos minutos rugia feito um leo, ameaador e prepotente, agora decara. Tornara-se servil e medroso. Seus olhos azuis pareciam de vidro, opacos e vazios.
	Eu no pretendia fazer isso! Ela confiou em mim, disse que tinha de casar com Paul. No perguntei por qu. No imaginei o que poderia acontecer.
"Pobre William", pensou Cassidy, desalentada.
	Da voc disse a Bettina como conseguir o controle da empresa, e deu-lhe Paul de bandeja.  Mais que uma pergunta, era uma afirmao.
William confirmou essa suspeita:
	Sim.
	E suponho que a ideia da pea, do baile tambm tenha sido sua...
	No! Foi dela, juro. Eu avisei que era arriscado, mas Bettina no me ouviu. Nunca me ouve, nem a ningum.
Cassidy j escutara o bastante. Estava enojada e triste, muito triste. As lgrimas nublaram sua viso quando percebeu que s Paul seria capaz de consol-la. Mas Paul no se encontrava ali. E em breve no estaria mais disponvel. Enxugando o rosto, empertigou-se ao declarar, solene:
	Ele vai se casar com Bettina porque no h nada a fazer.  E em tom de desafio concluiu:  O que no quer dizer que eu v deixar de v-lo.
William sacudiu a cabea, acatando as palavras da irm. Sua aparncia era deplorvel.
	No preciso dizer que, se algo der errado, Bettina cuidar pessoalmente para que eu seja demitido.
	Isso no vai acontecer. No deixarei.
Era o que faltava para que William se ofendesse ainda mais: estar nas mos da irmzinha. Logo ela, sempre to insignificante e sem brilho...
	Tem certeza de que pode fazer algo a respeito?
	Sim, tenho.
Um silncio incmodo instalou-se entre eles. At que, por fim, William o quebrou:
	Obrigado.
	Por nada. Agora, por favor, vamos encerrar esse assunto de uma vez por todas.
William assentiu, quieto.
	Otimo. Ser que podemos almoar? Estou faminta.
Alvin surgiu do nada, com um sorriso conciliador e uma interrogao no olhar. Desistira de entender os filhos, e no esperava ser entendido. Por isso se limitava a am-los, como naquele instante.
	Quem falou em fome?  indagou.
Cassidy se esquecera completamente de que estava na casa do pai. E, olhando para o colete de couro, a tatuagem e o rabo-de-cavalo, percebeu que nada nele lembrava o pai da sua infncia. Alvin Penno no era mais o chefe da famlia, e ela no era mais uma menina. Sentiu o peso da maturidade sobre seus ombros e se lembrou de que sempre fora assim... Alvin, sua me, William, todos perdidos num mundo paralelo ao real. Era ela que os ligava  realidade.
At o divrcio tardio de seus pais acabara recaindo sobre seus ombros. Jane se tornara mstica, Alvin brincava de ser motoqueiro. Restara a ela assumir o lado responsvel da famlia. William se colocara na posio comoda do filho revoltado. E os trs nunca haviam se lembrado de que Cass tambm tinha necessidades.
Esses e outros pensamentos ocuparam sua mente durante a refeio. Enquanto pai e filho trocavam frases sem muito interesse, Cassy comia em silncio.
William no demorou para ir embora. Ao ficar a ss com o pai, no fundo de seus olhos reconheceu um pouco a figura paterna da infncia.
	Vamos, conte o que est havendo  pediu ele.
Cassidy foi direto ao ponto, sem rodeios.
	Estou apaixonada por um homem comprometido, e por acaso ele  o patro de William.
Alvin no se mostrou chocado ou surpreso, e Cass ficou grata por isso. Apenas perguntou:
	A jovem est grvida?
Cass riu, divertida com o raciocnio antiquado do pai.
	No.  bem pior que isso. Digamos que envolve negcios, famlia e testamento.
	E esse rapaz est apaixonado por voc?
	Est. Pelo menos agora, est.
	Agora  o que importa, meu bem.  s o que importa. Por que no me conta essa histria desde o incio?  sugeriu Alvin com extrema delicadeza.
Ele estava certo. Para que pensar no amanh se h o presente para ser vivido?
	Est bem.
Cass tomou flego e comeou a narrativa. Mais do que curiosidade, Alvin queria dar  filha a chance de desabafar. Ouviu-a em silncio e, no final, limitou-se a dizer:
	Filha, estou orgulhoso de voc. Poucos seres humanos tm a felicidade de se entregar ao amor, e pouqussimos tm a coragem de faz-lo em uma situao dessa. Viver o momento presente com intensidade  uma ddiva imensa. Mesmo que venha a sofrer por isso, saiba que valer a pena. A lembrana desse amor vai estar com voc at o fim dos seus dias, e isso  o que faz a vida ter sentido.
Esse era o apoio que Cassidy buscava. Paul era nico, e ela no deixaria que o moralismo e as convenes interferissem. Agradeceu pelo almoo e despediu-se do pai, abraando-o. Ainda estava no corredor quando as lamrias de Alvin lhe chegaram aos ouvidos:
 Ou muito me engano ou essa menina vai envelhecer virgem!
Embarao e humilhao tingiram de vermelho as faces de Cassidy, que naquele instante decidiu que chegara a hora de desmentir a previso do pai.

CAPTULO VII

Paul sorriu para Cassidy, exatamente como mandava o roteiro. Em seguida, passou o brao por seus ombros, como fizera inmeras vezes nos ensaios.
A diferena foi que, dessa vez, Cass, em vez de permanecer parada, correspondeu ao abrao, enlaando-o pela cintura e apertando-lhe com fora a mo. Seu olhar o envolvia, cheio de promessas sedutoras. E isso tudo certamente no estava previsto no roteiro.
O corao de Paul disparou. Ele precisou de toda a sua fora de vontade para no beij-la ali mesmo, em frente aos holofotes.
No exato instante em que as luzes se apagaram, Paul tomou-a pela mo, arrastando-a para os bastidores. Para seu espanto, assim que ficaram sozinhos Cassidy puxou-o pela cintura, colando o corpo no dele.
 Que saudade!  sussurrou.  Voc sabia que nunca dormi to bem como naquela noite...
Como se uma corrente eltrica tivesse passado por seu corpo, Paul sentiu um sabor agridoce s de lembrar da noite ao lado de Cassy. Um arrepio de desejo e prazer o percorreu. Desde ento no haviam tido outro momento de intimidade.
Obviamente no a culpava por ser pura, mas vivia se torturando com a ideia de que outro homem ganharia o privilgio de t-la pela primeira vez, enquanto ele estava proibido de toc-la intimamente.
Afinal, no tinha o direito de tirar-lhe a virgindade por um momento de prazer...
Tomou-a nos braos e beijou-a como sempre desejara, longa e profundamente, com desejo puro e sem disfarce.
Notou uma certa agressividade no comportamento de Cassy, nos braos que enlaavam seu pescoo, na boca que se abria sem reservas, na lngua que buscava a sua. Entre surpreso e deliciado, sentia o corpo dela contra o seu, enlouquecendo-o.
Ento Cass levou uma das mos ao peito masculino e com movimentos rpidos, ritmados, comeou a acarici-lo, produzindo um efeito estranho e poderoso sobre ele. Excitado como nunca, Paul se surpreendeu com as sensaes fantsticas e alucinantes.
Nenhuma mulher despertara-lhe algo parecido. Sentia-se arrastado pela fora daquele turbilho chamado Cassidy.
Incapaz de se controlar, perdeu a noo de tudo e s quando a sentiu ofegante percebeu que lhe acariciava os seios com volpia.
Estavam perto de cometer uma loucura. Paul no conseguia pensar e logo seus dedos abririam os botes e zperes que ainda o detinham.
Ele a queria nua. Precisava sentir a maciez e o calor escondidos sob a malha de tric. Explorava o contorno dos seios, vido por despi-los. Extasiado, tocava de leve os mamilos rgidos, que nem o suter disfarava. Ento, com a outra mo, puxou a blusa de Cass para fora da cala. Isso a fez recuar.
Trmula e ofegante, afastou-o, segurando-lhe os braos. Controlando o impulso de agarr-la, Paul apenas esperou, desejando, sonhando, sem saber direito o que estava acontecendo.
Subitamente, Cassy respirou fundo e, puxando-o pela camisa, disse:
	V para minha casa esta noite.
Tomando as mos dela nas suas, Paul suplicou:
	Eu no poderia...
	Por favor. Eu preciso disso. Sei que no teremos muito tempo juntos, e quero, tanto quanto voc, aproveitar cada segundo. Estou pedindo...
Tomando-a nos braos, Paul apertou-a contra o peito, saboreando o momento. Enternecido com a magnitude da deciso de Cassidy, concordou.
	Se  o que realmente quer...
	Estou certa que .
Paul fechou os olhos, na tentativa de prolongar a sensao de felicidade.
	Cass, eu a quero tanto, tanto...
	Ento espere meia hora e v a meu encontro  sussurrou ela.
Dito isso, caminhou para a sada. Num rompante, porm, deu meia-volta e atirou-se nos braos de Paul. Beijou sua boca com sofreguido, e disse:
	Eu o amo!
	Cass...
Tarde demais. O som dos passos dela j ecoava na escada. Sozinho com seus pensamentos, Paul no sabia se ria ou se chorava. Ou as duas coisas. S tinha uma certeza: os trinta minutos seguintes seriam os mais longos de sua vida. Mas depois teria Cassidy, e por isso valia a pena esperar.
Aquela meia hora foi terrvel. Ele parecia um zumbi. No tinha a menor ideia de como ou com quem conversara. Tenso, pensava milhares de coisas. Tinha tantos receios que resolveu no pensar mais. Saiu da fbrica e parou num bar prximo  casa de Cass, onde trs cafs e uma fatia de torta ajudaram-no a suportar a espera.
A agitao foi passando  medida que se aproximava a hora marcada. Que estranho! Logo ele, um homem vivido, experiente at demais... Seu av tivera motivos para se preocupar com sua vida amorosa. Ou sexual, pois at ento todas as suas relaes tinham sido basicamente isso: muitas mulheres, muitas noites de prazer, e nenhum tipo de envolvimento emocional.
Ento uma jovem adorvel, pura e virgem aparecera em seu caminho, e tudo se transformara como num passe de mgica/ tornando-o um novo homem, capaz de compreender a beleza que existe na relao de afeto puro entre homem e mulher, dando ao sexo uma outra dimenso.
O que Cass despertara nele, naquela tarde, ia muito alm do que sentira ou imaginara at ento. Calmamente, foi ao encontro dela. No havia homem mais feliz que ele.
Ao chegar, tocou a campainha algumas vezes e ouviu a voz macia pedindo-lhe que entrasse. Quando girou a maaneta, um mundo encantado surgiu diante de seus olhos.
O aposento cheirava a jasmim, e todos os abajures estavam cobertos com lenos de seda. Velas aromticas completavam a iluminao, e almofadas espalhadas davam, junto  msica suave, o clima perfeito.
Como um anjo, Cassidy surgiu, ajudando-o a tirar o palet. Depois de guard-lo, ela mostrou por completo a aparncia estonteante, efeito das roupas que a vestiam, ou melhor, desvestiam.
A cala de veludo e o suter tinham sido trocados por um traje incomum, de danarina. Um corpete de cetim preto acentuava as curvas, fechado na frente por ganchinhos prateados. Colado ao corpo, marcava a cintura delgada e, no busto, realava-lhe os seios, exuberantes e semidespidos. Sempre ocultos pela roupa, os seios de Cassidy eram magnficos, fartos e firmes, convidando ao desejo.
Abaixo do quadril o corpete terminava em uma pequena faixa de tecido vaporoso, bordado, que cobria apenas o incio da coxa. As pernas de Cass estavam cobertas por meias pretas finssimas, presas por ligas rendadas. Os sapatos de verniz tinham saltos altos. Os cabelos louros foram presos no alto da cabea, e a maquiagem leve conseguia deix-la ainda mais deslumbrante.
Paul mal podia acreditar que aquela mulher estonteante seria dele, s e inteiramente dele.
Extasiado, nem ousava se aproximar, temendo quebrar o encanto. Mas Cassy chegou perto, iluminada de felicidade. Acariciou-lhe o corpo e, tomando-lhe a ponta dos dedos, beijou-os um por um. Paul envolveu-a pela cintura e deixou que ela lhe desabotoasse a camisa, para depois peg-la nos braos. A voz suave e rouca sugeriu:
 Vamos para o quarto?
Ansioso, ele a carregou at l. Velas iluminavam a cama coberta de lenis de cetim. Paul a colocou ali com delicadeza, ajoelhando-se a seus ps. Vagarosamente, tirou-lhe os sapatos. Cass se recostou e levantou a perna, para que ele a despisse. Reverentemente, os dedos masculinos obedeceram-na, deslizando da liga at a ponta dos ps, descobrindo o calor e a brancura daquela pele ardente. Na altura dos joelhos, os lbios de Paul acompanharam o trajeto dos dedos. Num frenesi de desejo, beijou cada milmetro das pernas longas e bem-torneadas.
Levantou-se e, segurando Cassy, cobriu de beijos as espduas nuas, provando o gosto da tez suave. Nas mos sentia o contorno das curvas, atravs do corpete. Pelo tato percebia cada detalhe, e, quando sentiu sob os dedos a fileira de ganchinhos que prendia a roupa, fitou-os.
Cassidy estava deslumbrante dentro daquele mimo de seda e cetim. De perto via-se a perfeio dos detalhes. E, para prolongar o arrebatamento, Paul se permitiu admirar, enlevado, cada encanto que Cassy produzira para aquela noite.
Ela percebeu e, lisonjeada e mais segura, teve a certeza de que no se arrependeria jamais do que iria fazer. Sentindo-se mulher, desejada e amada, extravasou o que estava reprimido, e pde viver realmente o sabor daquela fantasia. Com Paul. Para Paul. Sem medo.
Os olhos dele queriam guardar tudo na memria. Os cabelos louros presos em um coque frouxo, o pescoo  mostra, o colo nu, o espartilho colado  pele, preso ao saiote de renda, curtssimo na frente, mas longo e farto nas costas.
Erotismo e lascvia exalavam de Cassidy de tal forma que Paul no se conteve mais. Como esmeraldas, os olhos dela instigavam a procura dos tesouros ali ocultos.
Um a um, sob os dedos trmulos de Paul, os colchetes cederam. O saiote de seda caiu a seus ps. Cada nesga de nudez, por menor que fosse, mostrava um pouco da perfeio das formas de Cassidy e o incitava a querer mais.
Os trs ltimos ganchos cederam e, diante dele, coberta apenas pela seda da calcinha, Cassidy o desafiava, divina, enlouquecendo sua mente e fazendo disparar seu corao.
Sofregamente, ele tocou e acariciou cada contorno e salincia daquele corpo, com a respirao suspensa. Quando os seios de Cassidy encheram suas mos, Paul fechou os olhos, inebriado com o tamanho, a textura e o calor.
 O paraso!  suspirou, e olhando para Cassy:  Nada se compara  sua beleza. Voc  a mais...
Mas como transmitir em palavras o que achava? Ela era a perfeio. A mulher mais completa e fascinante, uma amante nica e enlouquecedora, ao mesmo tempo intocada e pura. Inocente de corpo e alma.
Cass, mais que nenhuma outra, merecia um homem e uma vida maravilhosa. Coisas que ele no podia oferecer. Devia a Cassidy fidelidade e respeito, mas estava agindo s escusas, clandestinamente.
Graas  prpria estupidez e ao comportamento obsessivo de Bettina, ele, Paul Barclay, perdera a oportunidade de ser o homem da vida de Cassidy Penno. E, mais que isso, perdera a chance de ser feliz um dia. Porm, antes ser infeliz e sofrer do que ser desonesto e vil. Ao menos saberia que no carregara Cassidy ao lamaal de desditas que o aguardava.
Ensopado pelas lgrimas que, sem aviso, escorriam por seu rosto, ele notou que nem fizera a barba ou se perfumara para encontr-la. Absorto em contar cada minuto que o separava do que iria receber, nem cogitara em oferecer algo em retribuio.
Tinha certeza de que a amava, e como! Amava de tal maneira que seria capaz de renunciar a ela. At porque isso seria o maior sacrifcio que algum poderia lhe pedir.
	Cassidy, sinto muitssimo, mas no posso fazer isso. Estaria arruinando sua vida agindo assim, e nunca conseguiria viver com esse peso sobre meus ombros.
	Por favor, fique...
Ele balanou a cabea, indicando que no havia opo. Tentado ao mximo, Paul no podia ceder ao desejo egosta de t-la. Seu amor o forou a superar o desejo, preservando-a de si mesmo. Ao sair da casa de Cass, ele superava a si mesmo, e, pela primeira vez, abria mo do prprio prazer em proveito de ou-trem. Confrangido, olhou-a pela ltima vez.
	Adeus, Cassidy. E obrigado.
Tinha certeza de que fazia a coisa certa. Mesmo assim correu para o carro, antes que mudasse de ideia.
Paul no dormiu aquela noite. A cama parecia feita de espinhos e no foram necessrios nem dez minutos para que ele se convencesse da inutilidade de suas tentativas em conciliar o sono.
Sentado no escritrio, varou a noite sem fechar os olhos. Ao amanhecer, saiu da poltrona e tomou um banho frio para poder enfrentar o trabalho.
No conseguiu engolir o caf da manh. A angstia o impedia de dormir, comer, at de pensar com clareza.
Foi com esse estado de esprito que entrou na fbrica naquela manh. E Bettina no poderia escolher dia menos indicado para tentar pression-lo. Uma vez que ela no admitia ser contrariada, ignorou os avisos da secretria e, sem se fazer anunciar, invadiu a sala de Paul.
Insolente, de nariz empinado, instalou-se sem cerimnia sobre a escrivaninha. Pernas esculturais  mostra, ela era a prpria imagem da mulher artificial.
Olhando-a dos ps  cabea, Paul notou que tudo parecia milimetricamente produzido. Os olhos maquiados de forma magistral causavam impacto. Sobre a pele bem cuidada havia um tailleur rosa-plido e nada mais. O tecido encorpado deixava entrever os seios, j que ela estava sem blusa sob o palet. A saia curta mal lhe cobria as coxas nuas, acentuadas pelos saltos altssimos, da mesma cor da roupa.
O nico adorno eram as prolas em volta do pescoo e nas orelhas, imensas e valiosas. Muito valiosas. Como tudo em Bettina Lincoln.
Glida esttua sem vida, pensou Paul. De que servia tanta beleza se dentro dela no havia um corao? Uma bruxa no seria to repugnante quanto o demnio louro  sua frente.
Bettina cruzou as pernas, sedutora. Aquilo deixou-o doente, com mais raiva do que jamais sentira antes.
	Desaparea da minha frente. J!!!  vociferou, afastando-se.
Foi uma atitude inesperada, que chocou Bettina. Por um momento Paul desejou que ela se rebelasse e pusesse um fim quela histria, mas se lembrou de que tinha responsabilidades para com a famlia. Mesmo que eles no merecessem.
	Vai sair ou terei que chamar o segurana?
Debaixo da maquiagem, a expresso de Bettina mudara. De p, ela esperou que Paul parasse de gritar e disse:
	Conversei com William.
Paul gelou ao imaginar o tipo de conversa que poderiam haver tido. Temia por Cassidy, no caso de Bettina ficar sabendo do que houvera entre eles. Surpreso, viu-a baixar os olhos em sinal de submisso.
	Estive pensando, e resolvi que estava enganada quanto  pea. Will me convenceu. Afinal, o papel foi feito para mim. Seria tolice no interpret-lo.
Ento era isso! William tinha sido mais maquiav-lico do que Paul poderia supor. Conseguira convencer Bettina de que ela estava perdendo o jogo, e assim a fizera voltar atrs.
Ao mesmo tempo, afastava-o de Cassidy e ganhava pontos com Bettina. Aquilo o enojava de tal maneira que sua vontade era jogar tudo para o alto. Mas, por pior que fossem, os membros de sua famlia dependiam inteiramente dele, e no era justo sacrific-los.
Se os parentes eram egostas, Paul no era. Subitamente, ele sentiu-se terrivelmente cansado. Pegou o palet e, olhando para Bettina, respondeu:
	Acho que deve falar com William a respeito. Afinal, ele parece se importar. Eu, no. At logo.
Ela no se moveu.
	Voc est estranho. Algo que eu possa fazer?
Paul deu dois passos em direo  porta, ento se virou e disse:
	Sim, h. Fique longe de mim, bem longe. Quero esquecer que voc existe.
	Mas e os ensaios?  perguntou ela com voz estridente.
	Fale com William. Ele dar um jeito  Paul respondeu, irnico.
No foi preciso falar mais nada. Bettina se recomps e, antes que ele a deixasse s, retirou-se da sala.
Paul estava arrasado, mas no permitiria que William se encarregasse de dar a Cassidy as ms notcias. Ao mesmo tempo, no tinha foras para falar pessoalmente com ela. No depois da noite anterior.
Ligou para a loja. Cass atendeu ao telefone, fingindo despreocupao, e ele foi direto ao assunto. Em poucas palavras disse que Bettina faria o papel de sua bisav na pea. O silncio que se seguiu do outro lado da linha revelava a decepo. Mas, assim que recuperou a voz, Cassidy disse pausadamente que essa era a melhor soluo para todos.
No ntimo, Paul esperava que houvesse menos compreenso, que ela se mostrasse indignada ou triste, mas no resignada daquela maneira. Era absurdo da parte dele, mas mesmo assim...
Pensando no bem-estar de Cassidy, murmurou:
	Eu sinto muito.  E desligou.
Depois disso, mergulhou no trabalho. Horas e horas olhando relatrios sem compreender nada, fazendo e refazendo contas at se convencer de que estavam erradas. No comeo da noite, resolveu continuar no escritrio e faltar ao ensaio.
Ligaria para William e diria para que ele se incumbisse tambm dessa parte da sua vida, j que o assessor se mostrara to interessado em resolver todas as outras.
Mas no o fez. Sentado em sua mesa, esperou at estar certo de que no havia mais ningum no prdio. Ento saiu em direo  fbrica.
L chegando, logo avistou o carro de Cassidy, parado no lugar de sempre. Estava ali para v-la, mesmo que a distncia. No precisou esperar muito para avistar seu sorriso encantador. Magoada ou no, o importante, para Paul, era saber que ela estava ali, viva, diante de seus olhos.
Saindo do carro, Paul caminhou em direo ao grupo, mas seus olhos continuaram fixos em Cassy. Os cabelos presos, como na noite anterior, deixavam o longo pescoo  mostra. Vestida com um suter ver-de-escuro e uma saia longa de l xadrez, verde e preta, ela usava um largo cinto e botas de couro preto. A silhueta delicada se destacava, como se fosse uma ninfa entre simples mortais.
Entre eles tambm estava Bettina. Loura platinada, exibia as formas esguias dentro de um costume vermelho, de cala e jaqueta, cujo zper aberto na altura dos seios deixava-os quase  mostra. Irritante vulgaridade para o gosto de Paul.
Cassidy chamou a ateno do grupo para anunciar as mudanas. Com a desculpa de que tinha outras tarefas, explicou que caberiam a William e a Bettina suas antigas atribuies e os papis de protagonistas.
Mal sara do lugar e Tony se adiantou, pedindo esclarecimentos. Com alguma insolncia inquiriu William:
 Voc no sabe nada sobre teatro. Por que deveramos lhe dar ouvidos?
William no gostou de ver sua autoridade questionada, ainda mais por Tony.
	No estamos falando de Shakespeare. De mais a mais, ajudei a escrever esse roteiro. E, se Cassidy me acha capaz de levar adiante o trabalho, no vejo razo para voc questionar minha capacidade.
	Pois  isso que me incomoda. No estou convencido de que Cassidy tenha tomado essa deciso  insistiu Tony.  Conheo-a bem para dizer isso. Para no tocar no repentino interesse da srta. Lincoln pelo papel...
	Acho que a culpa  toda minha  interveio Bettina com voz macia.
Como se estivesse diante da realeza, William saiu em defesa dela.
	Nada mais natural. Afinal, esse papel foi escrito para ela. E no quero ouvir mais uma palavra sobre isso.
Paul se aproximou e juntou-se a Tony, balanando a cabea em sinal de desaprovao. Um burburinho de insatisfao se fez ouvir.
William fitou o chefe e estremeceu ao notar o semblante duro, como esculpido em rocha. Temeroso, interpretou erroneamente o que viu e partiu para a defesa, dizendo:
	Minha irm  temperamental como todo artista. Daqui a um dia ou dois ela estar bem.  E, dirigindo-se a Paul:  Sei que lhe devo desculpas. Percebi que minha irm o importunou com suas fantasias e...
	Importunou a mim?  Paul repetiu, incrdulo.
	Eu sei, eu sei  continuou William, sem perceber o erro.  Devia ter falado com voc direito, mas quase cheguei a crer que fosse outra coisa, imagine s! Mas, depois do que ouvi nos bastidores, tive de tomar uma atitude drstica, sabe...
	Voc ouviu? Voc estava escutando?
	Foi doloroso, para mim, v-la. E talvez eu no devesse ter ido conversar com Bettina, mas entenda, no havia tempo para mais nada. E, convenhamos, ser uma boa lio para que minha irm no mais se envolva com homens comprometidos.
O dio cegou Paul. Um dio to intenso que ele sentia-se capaz de matar. E, antes que algum pudesse evitar, agarrou William pela garganta, jogou-o ao cho, e ignorando-lhe os gestos desesperados, vociferou:
 Seu estpido, nojento insensvel! Nunca mais fale nada de sua irm ou eu o matarei, ouviu bem? Se eu no a amasse tanto, teria prazer em fazer isso j!
Levantou-se e deixou William respirar. Que tudo se danasse, inclusive Bettina. Alis, especialmente Bettina. Lev-la-ia ao altar se ela insistisse, mas s. Dali em diante a farsa estaria encerrada. Se era o casamento que ela queria, timo. Seria satisfeita a sua vontade. Teriam a vida inteira para usufruir daquele inferno.

CAPITULO VIII

O humor de Paul no melhorou depois daquela noite desastrosa. Ele decidiu que os ensaios estariam limitados a uma vez por semana. No era preciso mais que isso. Eram poucas as falas, e Bettina podia perfeitamente ensaiar com William.
Depois, o grande trabalho fora feito por Cassidy, ela sim responsvel pelo texto leve, os cenrios, o figurino e a iluminao que, somados, conseguiam encobrir o desempenho sofrvel dos atores.
Graas ao esforo sobre-humano de Cass, Bettina estaria vivendo seu momento de glria sob a luz dos refletores, apesar da falta de talento para o palco.
Os dias passavam para Paul com enorme sacrifcio, mas o trabalho o ajudava a suport-los. As noites, porm, eram longas agonias.
O aniversrio de sessenta e trs anos de seu tio John no lhe trouxe alegria. Jamais teria se lembrado, no fosse seu tio Cari, padrasto de Bettina e irmo do aniversariante, que ligou para lembrar-lhe de que cedera sua casa para a comemorao.
Relutante, Paul tomou as devidas providncias, ou seja, ligou para sua governanta. Era absurdo que at as festas de aniversrio tivessem de ser organizadas por ele.
Com o bolo confeitado nas mos, saiu da fbrica, comprou uma caixa de champanhe e, cansado, chegou em casa a tempo de tomar banho antes que os convidados chegassem.
Ao descer a escada, vendo a mesa do salo arrumada com flores e velas, pensou que talvez no fosse to ruim passar uma noite entre a famlia, apesar de Bettina.
No bar, serviu-se de uma bebida. Ainda no provara o martni seco quando sua prima Joyce chegou, ao lado do marido, ambos irradiando felicidade. Recusando o drinque que lhe fora oferecido, ela contou que estava esperando um bebe.
Tio Cari e tia Jewel foram os seguintes, desculpando-se pela ausncia de Bettina e dando, dessa forma, um motivo para Paul celebrar.
Quando resolveu abrir o champanhe, mesmo antes de o aniversariante chegar, ningum pareceu se dar conta de que os efeitos do lcool j se faziam notar no comportamento de Paul. Ou pelo menos ningum disse nada.
Um pouco mais tarde, a me de Joyce, Mary Spencer, chegou e disse:
	Vou ser av, quem diria!
Jewel olhou para Paul e sugeriu:
	Quem sabe, no ano que vem a av possa ser eu...
Ele sorriu com sarcasmo e disse, em voz alta:
	Isso se Bettina fosse capaz de sacrificar sua bela silhueta por uma criana! No, tia Jewel, encare os fatos. A senhora nunca ser av, nem eu serei pai. Ambos somos vtimas da obsesso cega de Bettina. Seremos sacrificados, sem piedade.
O silncio aterrador que se abateu sobre a mesa pareceu no ter sido notado por ele, que encheu outra vez o copo com champanhe, alheio ao mal-estar reinante. John, o aniversariante, tentou mudar de assunto:
	E os negcios? Como vo?
Num gesto de desalento, Paul levantou a mo, dizendo:
Estaro melhores depois do ano-novo. E difcil trabalhar com algum sempre atrapalhando.
Os olhares trocados entre os presentes davam a entender que estavam todos cientes de quem se tratava. Porm apenas Cari disse algo, enquanto sua esposa baixava o olhar para o prato:
	Tenho certeza de que tudo ir melhorar depois que voc e Bettina se casarem. Ela no ter tempo para pensar em negcios, estando a seu lado. O amor transforma as mulheres.
O rudo do copo de Paul se estilhaando contra a mesa precedeu o que viria a seguir.
	Amor? Vocs  esto brincando  comigo  ou enlouqueceram?
A ideia de Bettina amando algum era hilariante, e Paul gargalhou. S depois, quando olhou para a pobre tia Jewel, percebeu que nem ela sabia a serpente que criara em seu seio. E nada havia para rir naquela situao. Virando num nico gole o contedo de outro copo, Paul sentiu um zumbido no ouvido e, suando frio, quase perdeu os sentidos.
No instante em que conseguiu enxergar com clareza novamente, deparou com o olhar estarrecido de seus tios. Jewel apoiava as mos sobre a mesa, tentando achar as palavras certas.
	Paul, est dizendo... est falando srio quanto ao sentimento? Quer dizer que vocs no se amam?
Fechando .os olhos, ele sentiu a cabea pesar. No estava com disposio para aquela conversa. Passando a mo na testa, apenas disse:
	Tia, a senhora no pode realmente achar que Bettina e eu estamos apaixonados...
	Mas no ano passado...
	Ns tivemos um caso? Realmente, e ela torceu tudo de tal forma que acabei sendo forado a esse casamento. Mas no se preocupem, vou me casar. Pelo bem dos negcios, pelo bem de todos os presentes, irei para o sacrifcio.
Dito isso, Paul subiu a escada e recolheu-se em seu quarto, antes que o vexame fosse alm do socialmente aceitvel.
Com a cabea estourando e um gosto horrvel na boca, ele lembrou que no podia beber mais que uma dose. Se houvesse uma maneira de apagar a noite anterior, ele o faria. A reao da famlia o preocupava, mas nada podia ser feito para remediar a situao.
O rudo do interfone nunca pareceu to estridente e, quando a voz de Gladys soou, ele adivinhou de que se tratava.
	A srta. Lincoln est aqui e no pude...  nisso a porta se abriu  ...evitar que ela entrasse.
	Culpa minha, devia ter comprado uma arma  respondeu ele, deixando a secretria aturdida.
Sob o olhar fuzilante de Bettina, ele calmamente tomou seu sal de frutas. S depois dignou-se a dar-lhe ateno. Horrorizada com o comportamento grosseiro, Bettina disse:
	Que est acontecendo? Voc me humilhou diante de toda a famlia!
	Mesmo? Achei que voc nem estava l, que coisa!
Rodeando-o, Bettina bufava de raiva.
	Como ousa dizer a meus pais que no me ama?
Paul no pde deixar de rir. O que a.irritava no era o fato de no ser amada, mas ouvi-lo dizer isso. Balanando a cabea, replicou, calmo:
	Sinto muitssimo desapont-la, mas no estou disposto a brincar de faz-de-conta. Estou velho demais.
	No me tire do srio! Venho sendo muito razovel. At agora.
	Razovel? Quando? Acho que perdi essa parte!
 Furioso, Paul bateu com fora o punho contra a mesa. 
	Acho melhor ser mais corts, primo. Pensa que no sei sobre a srta. Penno?
Mencionando o nome de Cassidy, Bettina tocou no ponto frgil de Paul, tirando-o do srio.
	Deixe-a fora disso ou vai se arrepender.
	 sobre isso que vim falar. Fao um acordo. Voc no a v nunca mais, e em troca assinarei um acordo pr-nupcial do jeito que voc achar melhor.  As palavras sibilavam, venenosas.
Ento esse era o jogo dela! Paul no hesitou:
	Eu concordo.
	Ento no h mais o que falar.  Exultante, Bettina saiu da sala como entrou, sem prembulos.
E deixou Paul com a sensao que dali em diante todas as suas vitrias seriam assim, to alegres que davam vontade de chorar. Bettina tinha razo numa coisa: no havia mais nada para ser dito.
Sentado no palco, Paul seguia com os olhos os movimentos de Cassidy pelo salo, vendo-a mostrar a Hoot qual seria a disposio das mesas. Graas a ela, Hoot no apenas concordara em ceder todas as mesas e cadeiras, como tambm aceitara a incumbncia de ser o responsvel pela comida e pela bebida. Mesmo com a quantia generosa que estava desembolsando, Paul sentia-se radiante. Ter Hoot naquela festa j seria motivo suficiente para trazer at ali um bom nmero de convidados importantes de fora do estado. Alm disso, conseguira que Bettina abrisse mo da orquestra, trocando-a por uma big band capaz de levar para pista de dana at o mais empedernido dos homens.
Aqueles msicos custavam uma fortuna, mas valiam cada centavo. A festa seria um sucesso, e graas ao trabalho de Cassidy. Seu corao se iluminava s ao lembrar dela. A seu lado Paul sentia-se como um adolescente apaixonado.
Isso Bettina no podia controlar.
Naquele momento, ela surgiu. Com um casaco de pele e saltos altos, bufava de raiva. Bastou avistar Paul e j desatou a proferir improprios.
	Como ousa?  gritou, atirando sobre ele uma pilha de papis.
	Voc parece aborrecida  caoou ele.  Foi algo que eu fiz?
O salo inteiro parou para ver o que estava acontecendo. Hoot e seus assistentes divertiam-se. Mas Cassidy convidou-os a deixar que "o sr. Barclay e a srta. Lincoln" falassem em particular.
Porm, Paul no permitiu.
	No vamos interromper o trabalho. E jamais me passou pela cabea privar a srta. Lincoln de fazer uma cena em pblico.
	Seu...
	Mea suas palavras, prima!
Tentando recuperar o controle, Bettina tentou transformar sua raiva em comiserao. Com ar choroso, interpelou-o:
	Como pde fazer algo to hediondo com as aes que vov me deixou?
	O meu av, voc quer dizer  corrigiu Paul.  Eu  que pergunto: como teve coragem de usar as aes para fazer chantagem comigo?
	No vou concordar em lhe dar minhas aes depois do casamento.
	No? Que pena. Ento esquea o acordo. Ou acha que sou tolo a ponto de deix-la interferir nos rumos da empresa?
As mos de Bettina estavam crispadas. Depois de um segundo de hesitao, ela disse:
	Certo. Mas voc ter o direito de voto enquanto estivermos casados. Caso haja divrcio, as cotas voltam para mim.
Paul sabia que isso acabaria acontecendo, mas no resistiu  tentao de irritar Bettina. Adorava v-la perder a compostura. Era sua pequena vingana. Para manter a calma, cerrou os dentes e falou:
	Tenho outra proposta. Com o casamento, voc vende as aes para os outros membros da famlia, menos a mim. Dessa forma todos ganham, inclusive seus pais.
Bettina estreitou os olhos, farejando algo suspeito no ar, mas concordou:
	Aceito. Assim terei um peclio para a velhice.
Paul pulou do palco para o cho, encarando-a com seriedade.
	Se  essa a questo, por que no me vende suas aes? Pago o dobro do valor de mercado.
	E deix-lo livre? Nem pensar. Se eu disse que ia me casar com voc, eu vou.
	Mesmo sabendo que no a amo? S porque disse a seus amigos que se casaria comigo? S por orgulho?
	Acha que eu deixaria o melhor partido de Dlias me trocar por uma costureirazinha?
Segurando-a pela lapela, Paul' avisou:
	Mais uma palavra e eu juro que ir se arrepender de ter nascido, Bettina Lincoln. Sou capaz de faz-la ficar sozinha no altar se souber que voc moveu um dedo em direo a Cass.
	Jura?
	No pense que pode me dominar. Estou muito propenso a esquecer as tradies familiares e mandar tudo para o ar. Quer apostar? Pois veja s.  E, virando-se para o salo, gritou para todos:  Ateno!
Tenho um comunicado a fazer: a srta. Lincoln sente muito, mas no se acha capaz de interpretar o papel de Jane Barclay.  Fez uma pausa para ver a perplexidade estampada em Bettina, e ento continuou:
 Cass, acho que ter de nos socorrer nisso.
Por um momento, Paul temeu que o bom senso de Cassy falasse mais alto e a levasse a recusar, deixando-o sem sada. Mas ela apenas cochichou no ouvido de Hoot, explicando que falariam depois.
Exultante, Paul bateu palmas. E nem percebeu quando Bettina se retirou. Apenas ouviu-a dizer:
	Vejo voc mais tarde, querido.
	No, se eu puder evitar  respondeu ele.
Quando deu por si, era Cassidy quem estava a seu lado. Reconheceu nos olhos adorveis a mesma expresso que j vira, temerosa por ele.
Apertando de leve a mo delicada, Paul tentou tranquiliz-la:
	Est tudo bem. Confie em mim.
Os olhos verdes o estudaram por um momento. Ento Cassidy se virou para os outros e, resoluta, disse:
	Todos em seus lugares. Esta  a ltima vez antes do grande dia!
Sua estrela brilhava outra vez. No ia deixar que nada atrapalhasse aquele momento mgico. Muito menos o orgulho de Bettina.
Cassidy no sabia o que pensar. Paul estaria em dvida? Sentiria, tanto quanto ela, a separao forada? Ao mesmo tempo, queria e no queria que isso fosse verdade. Mesmo que conseguissem ficar juntos por mais algum tempo, isso seria bom? Se ao menos Paul deixasse de lado seus princpios e fizesse amor com ela... Poderiam viver intensamente o pouco tempo que lhes restava.
Como sofrera nos dias e nas noites em que estivera longe dele! Sem aquele homem, sua vida ficara vazia, e a sensao de perda era constante.
E de repente l estava ela, ao lado de Paul, como se pertencessem um ao outro. Enquanto representavam o casal Barclay, extravasavam suas prprias emoes, misturando fico e realidade, pois sentiam-se to unidos quanto eles.
Uma paz imensa tomou conta de Cass. Calma como o mar antes da tempestade, pensou ela. Estava com Paul naquele momento, mas isso no duraria para sempre. E a ideia de perd-lo novamente era aterradora como a morte.
A primeira cena estava quase terminando, e Cassidy representara seu papel quase que automaticamente. Mas, quando Paul tomou-a nos braos para a ltima fala, seus olhares se encontraram, e ele a beijou apaixonadamente. Aplausos vieram de todos os lados da plateia improvisada.
O beijo foi interrompido, mas Paul manteve Cassidy nos braos.
	Cass querida, me perdoe.
Rindo, ela respondeu:
	De qu?
Paul no teve tempo de responder. Nesse minuto, as luzes se acenderam, e William surgiu, com a expresso pattica de sempre. Trazia na mo um calhamao de papel. Parecia  beira de um colapso. Porm, no foi dele a voz irada que se fez ouvir, mas a de Tony:
	Isso no est no roteiro!
	Agora est  respondeu Paul.
Cassidy fitou-o com ternura, perdoando-o por essa atitude ditatorial. Como recrimin-lo quando tudo o que ele vinha fazendo era por ela? Para ela? No, o amor tinha licena para coisas como essas... se for amor de verdade.
Sua deciso estava tomada e, mesmo sabendo que isso teria consequncias srias, Paul sentia-se aliviado. Pensara muito, e preferia faltar com a palavra dada e abrir mo de toda uma vida de trabalho. A abrir mo de Cassidy. No tinha direito de sacrific-la, fazendo-a passar por humilhaes, escondendo-a de todos.
Naquela mesma noite anunciaria publicamente sua deciso, e Bettina que se conformasse. Talvez o fato de seu amor por outra mulher ser de domnio pblico colaborasse para demov-la da ideia do casamento.
Tinha um plano para convencer Bettina a deix-lo em paz, a contentar-se com seu dinheiro e no com ele.
Cassidy tinha que estar a seu lado aquela noite. Seria a noite deles.
No a via havia dois dias. Desde ento estivera ocupado, organizando os negcios com alguns dos maiores supermercados do pas. Era a hora de a Barclay entrar no mercado nacional, e at aquele momento os contatos tinham sido timos.
Paul pusera Cari Thomas, marido de Joyce, para participar das reunies e assim se inteirar dos negcios. Depois de pensar muito, escolhera-o para tomar seu lugar, caso fosse preciso.
Eram quase cinco horas, e ele se dirigiu para a fbrica, ansioso por encontrar Cassy. Embora fosse muito cedo, achou melhor se vestir e esperar por ela nos trajes de bisav. Impecvel como patriarca da famlia, passou o tempo que restava inspecionando os preparativos para a festa. S Hoot e seus empregados trabalhavam. Brincando com as teclas do piano, Paul viu Bettina chegar.
O traje escolhido por ela fazia lembrar uma corista de saloon. Supermaquiada, vestida de rosa-choque, os cabelos presos num coque cheio de plumas e o imenso decote no deixavam dvida de que era Mae West a inspiradora do traje.
Ele a ignorou e vice-versa. Mesmo entretido com o relgio de bolso, Paul viu Cassidy ao pisar no salo de baile, e sua imagem o deixou sem ar.
A primeira vista, Cass parecia irreal, sada do passado, com a aura de romantismo do comeo do sculo. O vestido de veludo e seda prpura, adornado por renda negra, desenhava o colo e a cintura delicada, enquanto no quadril se avolumava numa profuso de sedas e laos. Os braos cobertos por luvas rendadas e mangas bufantes deixavam, entretanto, os ombros e o colo descobertos, e o decote generoso debruado por renda negra dava o toque sensual, exibindo e realando os seios perfeitos e fartos.
Paul caminhou pelo salo em direo a ela, e, oferecendo-lhe o brao, como um cavalheiro, conduziu-a para a festa.
 Voc est deslumbrante!
Cassidy estava de braos dados com Paul quando o primeiro convidado chegou, e assim permaneceu durante muito tempo. Um a um, foi apresentada a todos os amigos e conhecidos dele, suscitando comentrios e obrigando Bettina a justificar-se.
Ignorando os lugares marcados para o jantar, Paul sentou-se ao lado de Cassy, na mesa de Hoot. Sentia-se livre para viver a vida como bem entendesse, ao menos aquela noite. Todos pareciam muito felizes, exceo feita a Bettina, visivelmente irritada.
O baile no parou nem um minuto. Mesmo quando o jantar foi servido, alguns pares rodopiavam pelo salo.
Paul danou com Cassy quase todas as msicas. A felicidade estampada em seu rosto no passou despercebida aos tios, que, apreensivos, no sabiam o que pensar.
Um pouco antes do incio da pea, a banda parou de tocar e algumas luzes foram apagadas. Enquanto os convivas se acomodavam, Paul e Cassy se preparavam nos bastidores.
O belo vestido de noite foi substitudo por outro, bem simples e de tecido rstico. Paul estava perfeito na caracterizao do imigrante, com os suspensrios sobre uma camisa de malha e o leno amarrado no pescoo. Silncio total se fez assim que as luzes se apagaram e a voz do narrador comeou a contar a saga dos Barclay. Mas, quando os holofotes iluminaram o palco, um murmrio de admirao foi ouvido na plateia. O cenrio reproduzia, com riqueza de detalhes, a cozinha d bisav Jane. Em primeiro plano via-se Paul, amassando po sobre uma mesa tosca. Atrs dele, Cassidy parecia entretida com o fogo.
A primeira cena mostrava como Theo e Jane Barclay haviam conseguido tirar da cozinha de sua casa os primeiros pes do que viria a se tornar um imprio. Contando os centavos, trabalhando dia e noite sem descanso, muitas vezes Theo pensara em desistir, mas Jane estivera sempre a seu lado, at que conseguiram abrir a primeira loja.
Em cena, Cassidy e Paul iam dando vida  histria, levando os espectadores a se emocionar com a rdua batalha travada pelos antepassados. Quando Theo anunciava a Jane que iam abrir a padaria, ambos se abraavam e assim terminaria o primeiro ato.
Terminaria, mas no terminou. Surpreendendo a todos, inclusive Cassidy, Paul modificou o roteiro e, num gesto arrebatador, beijou-a. Como j fizera no ensaio, mas com muito mais paixo.
Perplexa, ela se entregou. Mas, ao explodirem os aplausos, entrou em pnico. Dali em diante ningum mais duvidaria de que ela e Paul eram muito mais que amigos ou bons atores.
Apavorada, desvencilhou-se do abrao e sussurrou:
	Voc perdeu o juzo?
	Ao contrrio, eu recuperei o bom senso.
	Do que est falando?
	Que no vou me casar com Bettina, mesmo que isso me custe a empresa. Mesmo que isso custe o bem-estar da famlia.
Atnita, Cassidy teve que deixar para mais tarde a conversa. A pea tinha de prosseguir. Eles precisavam trocar de roupa e voltar ao palco. William j acenava, pedindo que se apressassem.
Paul foi para o camarim em estado de graa com o que fizera. Dali em diante tudo seria mais fcil, mesmo com as dificuldades que teria que enfrentar, Cassidy estaria a seu lado, e isso j fazia a vida valer a pena.
CAPITULO IX

A pea, dali em diante, transformou-se um martrio para Cassidy, que no conseguia se concentrar. Paul fizera uma loucura sem tamanho ao desafiar Bettina. S ao pensar no que poderia acontecer com ele, Cass tremia.
Alheia ao que se passava  sua volta, ela precisou de um esforo sobre-humano para levar adiante o papel de Jane. Porm, nada disso interferiu no absoluto sucesso de sua atuao, que arrancou aplausos entusiasmados no final.
Depois de voltar ao palco duas vezes, ovacionados pela plateia, o elenco se retirou para que Cassidy e Paul fossem aplaudidos. Mas Cass correu para o camarim, fugindo de Paul.
Demorou-se mais que o necessrio. Para ganhar tempo, repetiu o ritual que inclua ducha e toalete completa. E, mais linda que antes, meia hora depois saiu do vestirio.
Trabalho intil, pois, com pacincia e um sorriso nos lbios, Paul esperava por ela. Sem jeito, Cassy tentou se esquivar.
	Oua, eu realmente preciso verificar...
	Seja o que for, ter de esperar. Deste minuto em diante a noite  nossa. Vamos nos divertir juntos.
E pegou-a pela mo para voltar ao palco e receber mais aplausos. Agradecimentos feitos, Paul pulou do palco para a pista, levando Cassidy. Poucos pares danavam quando ele se aproximou do pianista e cochichou algo. Em instantes os primeiros acordes de uma valsa encheram o salo. Sem escolha, Cassidy se viu no meio da pista, conduzida pelo homem que amava.
	Paul, eu no sei valsar!  sussurrou ela.
	No se aflija. Segure a calda do vestido e deixe o resto comigo.
	Est bem.
Sem saber direito como, Cassidy passou a rodopiar ao compasso da msica. Vendo-a assim, ele sorriu, dizendo:
	Viu s? Juntos somos capazes de qualquer coisa.
Um n fechou a garganta de Cass ao ouvi-lo dizer aquilo. Sabendo ser impossvel que permanecessem juntos, ela segurou as lgrimas para no estragar aquele momento de felicidade.
Encostou a cabea no ombro largo de Paul e deixou-se levar pela emoo de estar com o homem de sua vida. Mesmo que pela ltima vez.
A valsa terminou sem que eles parassem de danar. Estreitando-a ainda mais, Paul continuava incansvel nos volteios pelo salo. Os comentrios inevitavelmente surgiram, mas nada parecia capaz de abalar sua alegria.
Demorou muito at que ele olhasse para o relgio.
	Daqui a meia hora comear um novo ano.
	J  to tarde?
	No tarde demais para ns dois  disse Paul.  Eu no quero que seja.
	Paul, no...
Mas a voz de Cassidy foi abafada quando outra ecoou, estridente e irada, pegando-os de surpresa:
	Preciso falar com voc, Paul Barclay!  bradou Bettina.
Intimidando Cass, e os casais que estavam perto, Bettina s no comoveu Paul, que continuava a ignor-la, mesmo com os apelos mudos de Cassidy para que lhe desse ateno.
	Seja o que for, pode esperar  respondeu ele em voz alta.
Fora de si, Bettina fez um gesto brusco e colocou-se entre os dois.
	Engano seu. No pense que vai continuar me fazendo de idiota. No vou permitir!
	No? E de que jeito?
	Vou destruir voc!
Gargalhando, Paul respondeu:
	No seja ingnua.
	Juro que destruirei sua amada empresa e...
	Pois que seja. Faa o que quiser, mas nada me obrigar a casar com voc.
Um grupo cada vez mais numeroso de pessoas assistia, surpreso, ao escndalo protagonizado pelos anfitries da noite, sem saber o que pensar ou como agir.
Bettina estava furiosa, o belo rosto transfigurado numa mscara de dio, repulsiva e assustadora. Histrica, gritava cada vez mais.
	Como ousa me usar dessa maneira?
Cassidy estremeceu com o rumo perigoso que a discusso tomara. Conhecia Paul e temia pela reao dele. De fato, no estava enganada.
	Ora, veja! Voc entra em meu escritrio nua como veio ao mundo, joga-se a meus ps e depois me acusa de us-la?
Bettina empalideceu e avanou sobre ele, esbofeteando-o com violncia.
Impassvel, Paul limitou-se a dizer:
	Muito me arrependo de termos "usado" um ao outro, algumas vezes. Mas isso j passou, e eu no vou me submeter  sua chantagem.
	Maldito!
Sentindo a tenso insuportvel, Cassidy tentou evitar o pior, puxando Paul pelo brao antes que fosse tarde demais. Mas ele parecia no ter perdido a frieza, mesmo quando reafirmou categoricamente:
	No vou me casar com voc. No h nada que possa fazer para me obrigar.
O silncio cara sobre todos na festa, e nem msica se ouviu at o fim da discusso. O burburinho comeou imediatamente entre os homens de negcios presentes.
	Spencer se demitiu!
	Isso  suicdio para a empresa!
	Ser que ele aceitaria mudar para Boston?  especulou o dono da maior concorrente da Barclay, j pensando em contrat-lo.
	Sem Spencer, voltaremos ao tempo das carroas!
	Logo agora! Estamos perdidos...
Nesse nterim, sado do nada, William apareceu ao lado de Paul com um sorriso estpido no rosto, tentando contornar o escndalo, como se isso fosse possvel.
	Crianas,  melhor conversar sobre isso depois...
	V para o inferno, Penno!  vociferou Bettina.  Se voc tivesse tirado sua irmzinha do caminho, como eu mandei...
Abandonando a atitude fleumtica, Paul avanou em direo a ela, farto da atitude desptica da prima.
	Cale essa boca, antes que eu faa isso por voc!
Estava disposto a cumprir a ameaa, mas William segurou-o pelo brao. Fuzilando de desprezo, Paul jogou o assessor para longe, enojado com a falta de escrpulos de um homem como ele. Foi ento que Cassidy percebeu que tinha segundos para evitar o que poderia vir a ser, de verdade, um escndalo desastroso.
Colocando-se no caminho de Paul, mos espalmadas sobre o trax musculoso, murmurou entre os dentes, chamando-o de volta  razo:
No permita provocaes.  s o que ela quer.
Bettina logo provou isso, pois voltou a espicaar Paul.
Balanando a cabea, desafiando o primo, continuou:
	Vou arruinar suas padarias, voc ver!
	Mesmo comigo longe?
	Ser mais fcil, e mais divertido, com voc longe!
	Ento no posso fazer nada.
	Quer dizer que vai abrir mo de tudo?  perguntou Bettina, incrdula.
	No de tudo. No de Cassidy. Dela eu no abrirei mo, de jeito algum.
Horrorizada, Cass assistia a tudo sem poder fazer nada. Quando Bettina olhou-a dos ps  cabea, seus olhos destilavam dio, ameaadores.
	Bem, se  assim que quer... As empresas Barclay vo afundar para que voc possa estar com essa garota de programa.
	No!  exclamou Cassidy ao recuar, estarrecida.
No permitiria que aquilo viesse a acontecer. No com Paul, nem com sua famlia. Jamais se perdoaria se tivesse de ser feliz  custa do sacrifcio alheio.
Mas ningum parecia ciente da situao. Os semblantes hostis  sua volta indicavam isso. Entre tantos rostos, o de Tony se destacou dos demais. Correu para ele, implorando ajuda.
	Leve-me daqui. Quero ir para casa, por favor!
Merecendo a confiana depositada, Tony a amparou, e juntos encaminharam-se para a porta. Mas a mo de Paul pousou no ombro de Cass, retendo-a.
	Fique.
	Eu tenho que ir.
	No, querida. Por favor, espere.  Paul colocou-se no caminho, impedindo-a de seguir em frente.
	Deixe-a em paz, Spencer.
Paul ignorou o aviso de Tony, como se ele no estivesse ali. Seu olhar parecia s enxergar Cassidy.
	Vamos comear este ano juntos, como planejei.
Fique comigo.
	No posso. Bettina...
	Esquea Bettina! No v que ela mesma se destruiu, fazendo o que fez?
	No importa  sussurrou Cass, e saiu correndo antes que ele a convencesse a ficar.
Como convenc-lo a mudar de ideia? S ela poderia evitar que a runa se abatesse sobre a famlia Barclay. Poderiam ser felizes pagando um preo to alto? Que diferena haveria entre ela e Bettina se permitisse que Paul abandonasse os outros membros da famlia por sua causa? Depois de trabalhar duro para construir aquele imprio, no era assim to fcil largar tudo.
Correndo entre mesas e cadeiras, Cassidy tentava escapar de si mesma procurando a sada para a rua. Tony a seguia, e Paul ia logo atrs deles.
Cassidy escutava as palavras que Paul gritava a distncia, mas sem ouvi-las. S parou de correr quando percebeu que ele j no mais a perseguia e que, na noite fria de ano novo, escapava do nico homem que amara na vida. E ele jamais entenderia o motivo que a levara a deix-lo.
Exausta, Cass se rendeu ao abrao amigo de Tony e chorou todas as lgrimas que um corao partido pode ser capaz de produzir.
Fechado na solido de seu gabinete, cercado de seus livros, Paul abrigou-se no escuro enquanto o mundo inteiro recebia com fogos de artifcio a chegada do ano novo.
O fiasco da festa era devido nica e to somente  loucura de Bettina, que conseguira em meia hora pr em risco um sculo de respeitabilidade e tradio familiar. A solidez do nome Barclay desapareceria no momento em que os jornais anunciassem o escndalo da noite. E, em vez de crescer no mercado nacional, a empresa teria sorte se conseguisse manter a posio atual.
As aes no valeriam um nquel se fossem colocadas na bolsa. E, se no fossem cautelosos, aquilo poderia lev-los  falncia.
Embora tivesse se desculpado publicamente pelo infeliz incidente, Paul no deixara de sentir a repercusso pssima entre alguns de seus maiores clientes. O estrago j fora feito, e dificilmente a confiana seria restaurada entre os investidores. Pior, entre os consumidores dos produtos Barclay. Ele riu de si mesmo ao lembrar que os mesmos convidados que haviam aplaudido, comovidos,  pea, menos de uma hora mais tarde tinham testemunhado o vexame vulgar de dois dos herdeiros da mesma famlia.
Enchendo a cabea com essas consideraes, Paul tentava evitar que seu pensamento recasse na verdadeira tragdia da noite: a perda de Cassidy. Feria-se ao recordar do olhar de sofrimento que vira nela. Pior era lembrar da fuga da mulher amada, que se fora sem ao menos olhar para trs.
Ela no precisara dizer por que agira assim. Depois de ouvir as ameaas de Bettina, Cassidy no poderia suportar que outros sofressem por sua causa.
Desmoronavam, sob o olhar impotente de Paul, os pilares sobre os quais construra sua vida. E as esperanas de felicidade esvaram-se horas atrs.
Levado pelo temporal que se abatera sobre o navio da sua existncia, Paul de repente vislumbrou, entre os destroos do naufrgio, algo em que se apegar, talvez ainda uma tbua de salvao que o levasse de volta  terra firme.
Com isso em mente, achou fora para se levantar da poltrona, acender o abajur e procurar, dentro de si, as palavras que melhor expressariam o que tinha a dizer.
No relgio que pertencera ao primeiro Barclay, os ponteiros marcavam uma e meia da manh. Decidido, colocou a data no alto da folha em branco e comeou a escrever.
A quem possa interessar
Tive a honra e o privilgio de servir esta empresa e aos membros da famlia a quem ela pertence, representando-os durante os vinte anos em que aqui permaneci, desde menino.
Todo esse perodo tenho sido diligente no cumprimento de minhas tarefas, dando sempre o melhor de mim.
Por isso mesmo, quando, por escrpulos, sou incapaz de permitir que minha vida privada seja sacrificada aos interesses da empresa, acho por bem vir a pblico pedir minha demisso imediata e irrevogvel.
Meu ltimo ato, se me permitem,  recomendar, como meu substituto, o sr. Cari Thomas, que tenho certeza ser capaz de servir  famlia com igual, seno maior, competncia que eu.
Minha gratido  enorme aos muitos colaboradores que tive o privilgio de encontrar esses anos todos. Desejo de todo corao que a empresa e todos que dela fazem parte tenham muito sucesso. Estarei torcendo e vibrando, mesmo a distncia.
Sinceramente,
Paul Spencer Barclay.
Era tudo o que havia a ser dito. Tirou uma cpia, dobrou-a e colocou dentro do bolso do palet. Pegou o telefone e fez algumas ligaes, deixando mensagens nas secretrias eletrnicas que atenderam suas chamadas. No esperava achar ningum em casa, no naquela noite. Mas avisou a todos que os esperava para uma reunio, no dia seguinte, a uma hora da tarde, na casa de Joyce e Cari Thomas.
Para Carl e Joyce a mensagem fora mais calorosa do que as demais. Feito isso, Paul se deixou ficar por mais algum tempo sentado  mesa que fora de seu av, olhando para as paredes impregnadas de passado, de um passado do qual em breve ele tambm faria parte.
A atmosfera do lugar o envolveu, como se o abraasse pela ltima vez. Com a conscincia tranquila, ele apagou a luz e saiu para o corredor da fbrica vazia.
Foi direto para casa. L, desligou os telefones, tirou a fantasia com cuidado e guardou-a na caixa, para envi-la a Cassidy. Teria mais uso se ficasse na loja. Metdico e melanclico, segurou entre os dedos o velho relgio de seu bisav, olhando-o com carinho antes de devolv-lo ao estojo.
Demorou-se sob o chuveiro, e ao enfiar-se sob as cobertas no imaginava que fosse conseguir conciliar o sono.
J eram dez horas quando se levantou. O chuveiro e a espuma de barbear o ajudaram a encarar a manh silenciosa. Quando deixou sua casa, em direo  cidade, tinha a alma mais serena.
Nas ruas os sinais da festa jaziam, l e c, como testemunhas indiscretas da folia noturna. Ningum parecia disposto a sair de casa to cedo, nem se ouvia um rudo humano. A caixa com a fantasia era a desculpa para que Paul pensasse em Cassidy. Perguntava-se se ela tinha noo de quanto era amada. Talvez no. Talvez Paul nunca conseguisse retribuir  altura o que recebera, quando ela oferecera sua virgindade sem pedir nada em troca. Tentara fazer algo semelhante ao renunciar a tudo por amor quela mulher.
Naquela tarde, quando a reunio acabasse, iria a seu encontro. A loja teria de receber de volta as fantasias, e Cassidy teria que estar l para isso, da uma at as quatro horas. E ele chegaria antes das quatro, com certeza.
O tempo que faltava at a reunio foi gasto com um lauto caf da manh. Depois, ele deu uma caminhada e por fim se dirigiu  casa de sua prima Joyce. Passava um pouco do meio-dia.
A jovem grvida o recebeu de braos abertos, mas com evidente cansao. Preocupado, Paul quis saber de sua sade. Joyce sorriu, tranqilizando-o.
	Noite longa, s isso. Sentimos sua falta.
	Digamos que perdi a animao.
	Sinto muito por tudo.  E, olhando-o com simpatia, Joyce emendou:  Voc parece gostar muito da srta. Penno.
	Muito.
	Fico feliz. Vou chamar Cari.
Enquanto Joyce entrava pelo corredor, atrs do marido, Paul aproveitou para se recostar numa das poltronas em frente  lareira.
Acabara de sentar quando a campainha tocou. Ainda na dvida se devia ou no atender, foi surpreendido pela entrada intempestiva da tia Mary.
	Querida, mame est entrando...
A roupa extravagante, assim como os modos, faziam da me de Joyce uma figura e tanto, pensou Paul, tentando se lembrar h quanto tempo ela ficara viva, Sorte que Cari e Joyce j estavam de volta  sala. Um pouco depois, John, seu tio, chegou.
	Paul, vamos logo com isso  apressou o velho solteiro.
	Vamos esperar os outros  disse Cari.
	Sabe, gostei muito da srta. Penno, meu rapaz  falou a sogra de Cari, tia Mary.
	Penno... Acho que j ouvi esse sobrenome.
	Tio John, ela  irm de William Penno, um dos nossos funcionrios.
	No simpatizo com esse sujeito, mas gostei muito da moa. E quem se importa com o irmo dela?
	Tenho certeza de que o senhor vai adorar Cassidy. Ela no  como...
A campainha voltou a soar. Os pais de Bettina entraram, forando Paul a interromper o que dizia.
	...William  concluiu ele.
O jeito de Joyce, ou melhor de todos, fez com que Paul conjeturasse se no estavam escondendo algo dele. Quando seus tios entraram, suas suspeitas aumentaram. Comportavam-se de forma esquisita, quase ensaiada. Paul comeou a notar que todos tinham aparncia pssima, como se no tivessem pregado o olho a noite toda.
Ele no esperava uma boa recepo, depois de tudo o que acontecera na noite anterior. Mas, para seu espanto, Jewel foi a seu encontro e beijou-o no rosto com simpatia.
No havia motivo para delongas. Paul tirou a carta do bolso, pedindo que todos a lessem e passassem adiante.
Sem demonstrar surpresa, calma e controlada, a famlia permaneceu quieta at que o ltimo lesse a carta. Um ou outro meneou a cabea em desaprovao, mas quase imperceptivelmente.
Nervoso, Paul levantou-se e tentou prosseguir:
	Como sabem, ano passado, antes de vov falecer, tive a infelicidade de me deixar envolver num incidente...
	J ouvimos ontem sobre a nudez e tudo o mais.
O mal-estar tomou conta de Paul ao ver a franqueza demonstrada pelo velho tio John. Com a garganta seca, procurou encontrar as palavras certas para continuar. Olhando para Jewel, recomeou:
	Talvez tenha me excedido ontem  noite, e ningum lamenta mais do que eu pela mgoa que posso ter causado, tia Jewel, mas a raiva me fez perder...
	Paul, ela mesma admitiu o que houve.
	Admitiu?
	E todos aqui concordamos que Bettina precisa
de ajuda profissional  falou a me de Joyce.
Os olhares entrecruzavam-se, e Paul percebeu que no se enganara: havia algo acontecendo, e era de comum acordo.
O olhar triste do pai de Bettina, raso de lgrimas, comoveu a todos.
	Quando casei com Jewel, Bettina era criana  disse ele.  Talvez seja culpa minha, por no ter dado a ela o nome Barclay, adotando-a. No sei o que dizer, Paul. Apenas peo que nos perdoe.
Paul mal podia crer em seus ouvidos. Mas era verdade. Aceitou o que todos tinham a dizer com a alma aberta. Riu e se emocionou com cada um, com as desculpas por tudo o que haviam exigido dele a vida toda.
	Paul, em nome da famlia, recuso o seu pedido de demisso  falou tia Mary.  Talvez isto o convena a ficar.  E colocou sobre a mesa de caf um envelope, no que foi imitada por todos.
Ento fizeram sinal para que ele os abrisse. Nem em um milho de anos Paul poderia imaginar o que estava acontecendo. Todos entregavam, formalmente, naqueles envelopes, suas aes da Barclay. Para ele.
Tirando os trinta por cento de Bettina, Paul agora era o nico dono da empresa. Emocionado, beijou os parentes e, feliz com a demonstrao de confiana, ensaiou uma recusa da oferta generosa. Mas, antes que o fizesse, John, o mais velho da famlia, o interpelou com energia:
	Filho, isto no  um favor a voc. E uma tarefa, e no ouse desobedecer com uma negativa.
	Saibam ento que nunca vou me esquecer disso, e prometo que nada vai faltar para nenhum Barclay enquanto eu, ou um dos meus, viver.
	Nunca duvidamos disso  afirmou o velho John Barclay, sentindo orgulho do prprio cl.

CAPITULO X

Cassidy olhava com melancolia para o chapu que tinha nas mos. As plumas e os laos cor-de-rosa traziam-lhe  memria o rosto crispado de dio de Bettina.
Um portador levara a fantasia  loja, e fora impossvel, para ela, no se lembrar da dor que ainda a magoava. No sabia de quem tinha mais raiva, se de Bettina ou de Paul. Como ele pudera supor que ela fosse concordar com tamanha insanidade? Cass jamais permitiria que o homem amado perdesse tudo por sua causa.
Na frente da loja, Tony recebia os trajes de volta. Examinava-os e em seguida os encaminhava para Cassidy, que tratava dos reparos, se necessrio, antes de envi-los para a lavanderia ou para outras lojas.
Cuidadosa, separava os acessrios, embalando cada pea. O chapu de plumas tambm fora abalado com a fria de Bettina, mas pelo menos nesse caso os danos no eram irreparveis. O mesmo no podia ser dito das demais vtimas daquela mulher cruel.
De onde estava, era possvel ouvir Tony conversando com os clientes. A maioria deles eram empregados de hotis que traziam vrias caixas dos hspedes de fora, ou ento maridos sonolentos, loucos para voltar para casa. Um ou outro, mulheres quase sempre, esticavam um pouco a conversa, que girava sempre sobre o mesmo assunto: o escndalo de Bettina e Paul. Mas Tony discretamente evitava comentrios.
Por isso, ela estranhou o tom das palavras do assistente, cheias de raiva. S ento reconheceu a voz de Paul, e estremeceu.
Desde que entrara no carro do amigo, fugindo da festa e de Paul, ela sabia que cedo ou tarde teria que enfrentar a realidade e pr um fim ao romance.
Apenas adiara esse momento ao fugir sem explicaes. Em vo buscara uma maneira de tornar isso menos doloroso. No fundo, apenas repetia o que ele fizera na noite em que tentara seduzi-lo. Renncia  um belo gesto, mas em geral acaba matando o amor. Ningum pode viver com o peso e a responsabilidade desse ato.
Amor no pode ser sacrifcio ou dor, mas alegria compartilhada. Se no pode ser assim, ento no  amor.
No foi surpresa a entrada intempestiva de Paul e Tony no ateli, esbaforidos.
	Eu avisei que voc no queria v-lo esbravejou Tony , mas, como de costume; ele no me ouviu.
Pelo desalinho de ambos, e pela atitude do assistente, no foi difcil deduzir que haviam ido alm do embate verbal. Tanto que as mos de Tony ainda agarravam a jaqueta de Paul.
Dirigindo-se a Cassidy, ele fez de conta que Tony no existia, irritando-o.
	Eu tenho que falar com voc.
Sem parar o que estava fazendo, Cassidy assumiu uma atitude distante, e com a voz isenta de emoo disse em poucas palavras o que tinha a dizer.
	Como j dissemos antes, voc no  homem para mim. Ontem,  meia-noite, nosso caso terminou, conforme tnhamos combinado.
	Os planos mudaram.
	No, no que me diz respeito.
	Querida, oua. No vou precisar desistir da empresa. Minha famlia...
	No foi o que me disse  interrompeu ela.
	Na noite passada...
	Voc afirmou que no era o homem certo para mim, e vrias vezes. At que me convenceu disso.
	Isso foi antes que eu soubesse...
	Spencer, no ouviu? Ela no o quer mais! Ser que no percebeu ainda?
Cassidy permanecia impassvel. Apenas um leve tremor nos lbios denunciava seu verdadeiro estado de esprito. Antes que desmoronasse, pegou o telefone, fingindo discar.
	O que est fazendo, Cass?
	Chamando a polcia, Paul. Eu pedi que sasse, mas voc se recusa a me atender.
	Que h com voc? Cass, sou eu! Ser que no pode me dar um minuto?
	Serei mais claro, sr. Spencer. Ontem Cassidy fez sua escolha. Passou a noite comigo.
O rosto lvido e os olhos arregalados de Paul deixaram evidente que Tony conseguira um efeito arrasador com sua revelao bombstica. At Cassidy ficara chocada, mas disfarou bem.
No precisou esperar dois minutos para ter Paul Spencer Barclay longe da loja, e, consequentemente, fora da sua vida. Sem uma palavra, ele se virou e partiu.
Chocado. Estarrecido. Na sala vazia de sua casa, sentado em frente  lareira, Paul estava alheio a tudo  sua volta. Sempre soubera que aquele rapaz tinha uma paixo secreta por Cassidy, mas nunca lhe passara pela cabea que fosse recproco. Ela mesma dissera que no havia nada entre os dois.
No fazia mais diferena. De um jeito ou de outro, algo a havia empurrado para os braos de Tony, e certamente o responsvel por isso era ele mesmo.
Vira o desconforto de Cass quando a apresentara publicamente, no perguntara sua opinio antes de exp-la a uma situao embaraosa. Pressionara demais.
Aos vinte e cinco anos, Cassidy era uma jia rara, que fora-lhe concedido possuir. E que ele estupidamente recusara. Talvez isso explicasse o repentino interesse dela por Tony, pois o assistente parecia no ter dvidas sobre como agir a esse respeito.
No, no. Era inconcebvel imaginar que sua adorvel, suave Cassidy fosse se atirar numa cama com o primeiro homem disponvel. Ou com qualquer outro homem que no ele.
Desesperado, Paul se curvou ao peso da solido e da amargura. Fechando os olhos, cerrou os maxilares para no gritar alto sua dor.
Foi nesse instante que se deu conta da mais bvia realidade. Fora um tolo em no perceber o que estava diante de seus olhos. Claro! Cassidy renunciara pelo seu bem. S um estpido apaixonado, ciumento, no perceberia.
Precisava achar um jeito de faz-la escutar o que tinha a dizer. Mas... e se realmente fosse verdade o que Tony dissera? Se estivesse apenas tentando se enganar?
Enterrando o rosto nas mos, Paul descobriu que no tinha escolha. Sem Cassidy, a vida no valeria a pena. Portanto, s tinha a ganhar indo  procura dela. Enquanto houvesse um fiapo de esperana, no desistiria.
Se Cass no quisesse ouvi-lo, procuraria algum que pudesse falar por ele. Algum que a fizesse acreditar que poderiam ser felizes juntos.
J eram quase cinco horas, e Cassidy ainda no conseguira fechar a loja. Depois da noite agitada, todos pareciam ter deixado para a ltima hora a devoluo das fantasias.
Deixando os reparos de lado, Cass socorreu b assistente no balco. Triste, dava graas pela montanha de roupas que aguardava' por ela nos dias seguintes. Mesmo tendo certeza de que fizera a coisa certa, sentia o corao estraalhado. S o trabalho a distrairia.
Ocupada, com a loja cheia, mal pde crer em seus olhos quando, entre os clientes, reconheceu William. E Bettina Lincoln.
Atnita, Cassidy parou tudo o que fazia e, sem alarde, foi ao encontro deles. Encarando o irmo com profundo desdm, foi taxativa:
	Fora da minha loja. Voc e essa senhorita no so bem-vindos aqui.
Mas William parecia determinado a ficar. Segurando o brao de Cassidy, impediu-a de se afastar.
	No saio antes de trocar duas frases com minha irmzinha. Podemos falar a ss?
	Como ousa trazer sua amiga aqui?  Cass perguntou, furiosa.
	Posso explicar, se me der chance.
	William, estou ocupada.
	Sinto, mas isso no pode esperar.  E, ato contnuo, puxou a irm para dentro.
Tony estava atolado de clientes, mas ainda perguntou se devia chamar a polcia para tirar William de l. Cassidy disse que no. Afinal, William ainda era seu irmo, e a polcia aumentaria muito a dimenso do escndalo. Podia cuidar de seus problemas sozinha. Ento virou-se para Tony antes de entrar no ateli e disse:
	Cuide dos clientes. No demoro.
A cena era bizarra. Bettina e William de braos dados, trocando olhares cmplices. Ao fechar a porta, Cassidy sentiu o olhar da moa fixo nela. Um prembulo para o que viria a seguir.
	Voc arruinou a minha vida  comeou a srta. Lincoln em tom casual.
Para quem afirmava tal coisa, Bettina parecia muito bem. Alis, bem demais. Elegante, vestia uma saia longa de l marrom, uma malha de gola role um tom mais claro e jaqueta de couro com gola de pele, tambm marrom. E, principalmente, mostrava a expresso mais serena dos ltimos meses. A impresso que se tinha era de que a vida dela jamais poderia ser arruinada.
	No fiz nada para isso.
	Como no? Voc roubou o nico homem que eu j quis.
Quis. Cassidy achou irnica a escolha das palavras, mas no deu mostras disso. Com calma, retrucou:
	Sinto muito. Por voc.
Bettina olhou desconcertada para William, pedindo auxlio.
	 verdade, Cass. Paul a ama. Humilhou e rechaou Bettina por amor a voc. Sei que tive culpa nisso, mas no pensei que ele pudesse sentir atrao por uma garota... bem, pela minha irm mais nova.  Num gesto teatral, o rapaz colocou a mo sobre o peito.
	Assumo toda a responsabilidade pelo que houve. No devia ter confiado num homem como ele, to sedutor. Sei que Paul a envolveu com promessas para tirar proveito de sua ingenuidade.
Cassidy no sabia se ria ou se os enxotava dali. A situao era hilariante. Assumindo uma postura mais formal, disse, com sinceridade:
	Paul no  esse canalha que voc est insinuando. Jamais seria capaz de humilhar ou abusar de quem quer que fosse.
	Ele me usou para satisfazer seus desejos sexuais 	protestou Bettina, dramtica.
	Por favor, no seja ridcula! Voc o usou. No apenas sexualmente. Tambm o chantageou emocionalmente. O mundo sabe disso.
	Como ousa?  Avanando sobre Cass, Bettina foi detida por William.
	Cassidy, Paul conseguiu pr toda a famlia a seu lado, e contra Bettina. Juro! At os pais dela esto com ele. Pode acreditar. Todas as aes da famlia Barclay pertencem a Paul agora. Faa algo. No permita que ele destrua Bettina. Voc pode ser a prxima. Pense nisso!
	Vocs esto loucos! No sei o que est havendo, mas conheo Paul. Ele no trairia ningum, muito me nos conspiraria contra uma mulher.
	Ele faz coisas horrveis quando lhe interessa  disse Bettina.
	Se  assim, por que voc quer tanto se casar com ele?
Sem emitir um som, Bettina movia os lbios sem saber o que dizer. Por fim, irritada, gritou para William:
	Diga algo! Convena sua irm!
	Bettina o ama. E, depois, a famlia est contra ela. So capazes de arruinar a vida social de Bettina com comentrios maldosos. Alm disso, como ela vai manter sua posio atual nesse tumulto com a famlia?
	Tudo porque eu no tenho o nome Barclay! E injusto, sempre foi. Sempre me disseram que eu era como eles, mas no fundo isso no era verdade. Nunca pude usar o nome do meu padrasto, e, embora eu odiasse meu pai de verdade, obrigaram-me a manter contato com ele, ter "respeito" por ele. Um joo-ningum, que me cobria de vergonha com sua pobreza. Meu pai  Cari Barclay, sempre foi.
	Percebe quanto ela sofreu, Cass?
	No, no percebo, mas deve ser duro mesmo...
	Cassidy no sabia o que dizer para aqueles dois pobres infelizes, to obcecados por um mundo de aparncias, fteis e ridculos. Eram dignos de pena.
	Faa algo por mim! Far?
	O que quer que eu faa?
	Diga a Paul que no quer mais ficar com ele. Diga que o motivo  essa atitude em relao a Bettina. Convena-o a voltar atrs e a cumprir com sua palavra. Ele pode casar com Bettina e ter voc ao mesmo tempo. E as empresas. Tudo ser perfeito, no v? E s deixar seu orgulho de lado, Cassidy. S dessa vez, faa algo por mim!
Era lamentvel, depois de tudo o que ela fizera por William durante os ltimos vinte e cinco anos, ouvir esse tipo de coisa. Ficou claro que errara ao poupar o irmo das crticas, desculpando todos os seus erros. Desde criana ele fora mimado por Cass. O resultado era esse homem egosta.
Errara tambm quando julgara Paul to inconsistente quanto William, negando-lhe a chance de tomar uma deciso importante, expulsando-o da sua vida. Se conhecesse bem o homem que amava, saberia que ele no sofreria se perdesse fama e fortuna. Paul desprezava aquilo que William prezava tanto.
	Pedi que Paul sasse de minha vida hoje  tarde. William, Bettina, no tenho nada mais com ele. Cometi o erro de mandar embora o homem que desistiu de tudo por mim. No h nada que eu possa fazer por vocs, portanto.
Enfurecida, Bettina estava duplamente irada, pela inutilidade de sua humilhao e por estar sem sada de novo.
	Estamos perdidos...  lamentou William.
	No h nada a fazer.
A voz vinha da porta, onde, parados, Paul e Tony assistiam ao final dramtico daquela cena. Ao contrrio da tarde, pareciam muito amigos. Com as pernas bambas, Cassidy foi ao encontro dele, caindo em seus braos.
	Paul!
Depois de acolher Cassidy, e senti-la segura, ele voltou sua ateno para Bettina.
	Voc est certa, no h nada a fazer. A famlia me deu poder e me confiou todo o controle acionrio da empresa. Tenho setenta por cento das aes. Portanto, voc ter de se curvar s minhas decises. No esperava isso,  cheguei a renunciar  minha funo na empresa. Foram eles, sozinhos,  que resolveram tudo. Portanto nem eu, nem ningum poder ajud-la a recuperar seu prestgio.
	Eles no podem agir assim! Eu no mereo! E voc no pode ganhar tudo sempre...
	No ganhei nada. Aprenda, nada vem sem esforo. Nem mesmo o amor.
	Para voc, talvez  retrucou ela.
	Sugiro que saiam agora, os dois  ordenou Paul  Ou vou chamar a polcia. Certo, Tony?
Cassidy nem percebera os modos amistosos entre seu assistente e Paul. Estranhou quando ouviu o jovem responder:
	Voc manda!
Sem palavras, Cassy sorriu com doura para o amigo e estendeu-lhe a mo.
	Obrigada, Tony. Por tudo.
Envergonhado, Tony baixou a cabea. Num rompante, porm, esticou os braos para William e Bettina com autoridade e ordenou:
	Que esto esperando? Rua! Ou terei de usar o telefone?
Os dois pareciam figuras caricatas. Desprezveis. Saram, finalmente, deixando Paul e Cassidy  ss. Muita coisa vinha-lhes  cabea, mas eles permaneceram quietos, pela primeira vez livres.
Paul se afastou um pouco para poder fit-la por inteiro. Seus olhos se encheram de lgrimas, e, emocionado, ajoelhou-se em frente a ela.
	Cassidy Penno, ser que posso pedir sua mo em casamento? Desde a primeira vez que entrei aqui, neste mesmo lugar, sonho com isso. Quer se casar comigo, minha boneca adorada?
Soluando de felicidade, Cassy pendurou-se no pescoo de Paul, cobrindo-o de beijos. Essa pergunta j tinha sido respondida por ela, muito tempo atrs. Mesmo assim, fez questo de repetir:
	Sim, eu quero me casar com voc.  o que mais desejo na vida.
Um longo beijo selou o compromisso de amor.

FIM
